Holanda

ADN confirma que médico de fertilidade usou o próprio sémen para gerar 49 filhos

ADN confirma que médico de fertilidade usou o próprio sémen para gerar 49 filhos

Os testes de ADN confirmaram que um médico holandês é o pai biológico dos filhos de 49 mulheres inseminadas artificialmente na clínica que dirigiu durante 40 anos, em Roterdão, na Holanda. Jan Karbaat tem ainda mais 22 filhos, de várias companheiras sentimentais.

Jan Karbaat, apelidado de "médico inseminador", era suspeito de usar o próprio sémen nas pacientes quando os tratamentos falhavam. Os resultados aos testes de ADN de 49 pessoas, divulgados esta sexta-feira, confirmaram as suspeitas que se acumulavam há vários anos.

As análises foram efetuadas no hospital Canisius Wilhemina, em Nimega, no sul da Holanda. O caso ganhou dimensão em 2017, depois de um dos herdeiros legítimos de Karbaat ter aceitado cruzar o ADN com o de 18 filhos de mulheres tratadas na clínica do pai.

Quando os resultados demonstraram que eram todos irmãos, muitos mais pediram aos tribunais uma amostra de ADN do médico, falecido em 2017, aos 89 anos. "Muitos suspeitavam de Karbaat há anos, e muitos tinha semelhanças físicas, mas ter a certeza foi muito importante", argumentou Ties van der Meer, da Fundação Filhos de Doadores, que apoiou esta causa, citado pelo jornal espanhol "El País".

Pai de pelo menos 71 holandeses

Para Joey Hoofdman o teste de ADN foi a penas a confirmação oficial para algo que sentia verdadeiro, pelo menos há dois anos, quando viu uma foto de Kaarbat em novo. "Deu-me calafrios. Fiquei desconcertado, chocado... quase caí", disse num programa da TV holandesa RTL4.

As semelhanças eram tantas e tão evidentes que Joey esperou que a mãe morresse para avançar com o teste de ADN. É certo, agora, que tem pelo menos mais 70 irmãos, entre os 22 legítimos de Kaarbat, de várias mulheres, e os outros 48 de inseminação artificial não informada. No total, gerou pelo menos 71 holandeses.

Moniek Wassenaar, uma das filhas agora confirmadas de Kaarbat, argumenta que o médico se aproveitou das mulheres. "Estavam num dos momentos mais vulneráveis das suas vidas, convencidas de que o sémen era de doadores anónimos, nem perguntaram nada. Julgo que ele nunca teve consciência da transcendência dos seus atos", disse ao "El País", em 2017, quando o caso começou a formar-se.

A doação anónima de sémen é permitida na Holanda desde os anos 70 do século passado. Em 2004, uma alteração na lei passou a permitir aos maiores de 16 pedir a identificação do doador na clínica que tratou a mãe. Uma paciente de Kaarbat não encontrou o pai biológico da filha e deu início à investigação que veio a revelar a imensa prole do "médico inseminador".

O filho legítimo que aceitou ceder a amostra de ADN que ajudou a desfiar todo este novelo não ficou surpreendido por ganhar quase meia centena de irmãos, já adultos, no espaço de dois anos. Já teria feito saber que o pai lhe tinha confidenciado que teria "uns 40 descendentes" concebidos por inseminação artificial das pacientes.

Médico justificava taxa elevada de sucesso com mistura de sémen

Kaarbat tinha uma taxa de êxito elevada porque trabalhava com uma gama vasta de pacientes, desde casais estáveis, mulheres solteiras ou lésbicas. Durante cerca de 40 anos, perto de seis mil mulheres passaram pela clínica, tendo gerado aproximadamente 10 mil filhos.

A clínica, que funcionou em Barendrecht, nos arredores de Roterdão, na Holanda, entre 1980 e 2009, foi obrigada a fechar, após uma inspeção sanitária que detetou "graves problemas administrativos, como a falta de registos e desordem documental".

Em 2016, num entrevista, justificou as elevadas taxas de sucesso sustentando que misturavam amostras de sémen de vários doadores, de forma a aumentar as probabilidades de êxito.

Confrontado com as suspeitas de que usaria o próprio esperma, disse que as queixosas eram "mães insatisfeitas com o resultado" da inseminação e recusou sempre submeter-se a testes de ADN.

Em fevereiro deste ano, um juiz autorizou os interessados a comparar o ADN com o do médico, recolhido de vários artigos de uso pessoal que estão guardados num lugar secreto. O magistrado argumentou que tendo o médico usado "o próprio sémen com as pacientes sem as informar, os herdeiros legítimos como a viúva não podem reclamar agora que se respeite o anonimato do médico", adianta o jornal espanhol "El Periódico".