Ambiente

Alterações climáticas na Antártida terão efeitos irreversíveis no mundo

Alterações climáticas na Antártida terão efeitos irreversíveis no mundo

Um estudo que é publicado na quinta-feira na revista "Nature" conclui que as escolhas feitas nos próximos anos para a Antártida determinarão o futuro da região, cujas alterações climáticas terão impactos ambientais irreversíveis em todo o planeta.

"Mudanças na região Antártica vão ter consequências no resto do planeta e na Humanidade" e "as escolhas feitas na próxima década vão certamente afetar a Antártida e o mundo a longo prazo", revela um estudo que vai ser publicado na quinta-feira na revista "Nature", anunciou esta quarta-feira a Universidade de Coimbra (UC).

Os autores da investigação são todos "vencedores do prestigiado prémio Tinker-Muse para a Ciência e Política na Antártida" e "especialistas em diversas disciplinas científicas, incluindo biologia, oceanografia, glaciologia, geofísica, ciências climáticas e política", refere a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O único cientista português que participa no artigo é José Xavier, docente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC e investigador do Centro de Ciências do Mar e Ambiente (MARE), que venceu o Tinker-Muse 2011.

O estudo põe em contraste duas narrativas sobre o futuro da Antártida, a partir da perspetiva de um observador em 2070 olhando para trás, isto é, para os últimos 50 anos, explica a UC, adiantando que "cada narrativa realça as ramificações a longo prazo das decisões tomadas hoje".

Os dois cenários, "baseados em ciência, representam futuros alternativos plausíveis, em vez de previsões", salienta.

Num desses dois cenários, "as emissões de gases de efeito de estufa continuam a aumentar, o clima continua a aquecer e as ações políticas são poucas para responder aos fatores sociais e ambientais na Antártida".

Neste contexto de elevadas emissões, "a Antártida sofrerá mudanças rápidas por toda a região, com consequências no resto do mundo", descreve a UC, adiantando que, "em 2070, o aquecimento causou o degelo e acelerou o aumento do nível global do mar, alterou os ecossistemas marinhos e o aumento ilimitado do uso humano na Antártida degradou o ambiente e introduziu pestes invasivas".

Na segunda narrativa, "ações ambiciosas são adotadas para limitar as emissões dos gases de efeito de estufa e estabelece políticas para reduzir a pressão antropogénica no ambiente, abrandando a taxa de mudança na Antártida".

Nesta situação de baixas emissões - "ações rápidas e efetivas para a redução de emissões de gases e implementação de políticas para minimizar mudanças na Antártida" -, as plataformas de gelo "mantêm-se intactas, há um abrandamento do aumento do nível global do mar, os ecossistemas mantêm-se intactos e a pressão humana na Antártida é gerida apropriadamente".

O estudo permitiu "compreender quais são as grandes ameaças que se enfrenta hoje na Antártida, como o degelo e a acidificação dos oceanos, e também as suas consequências no resto do mundo, como no nível da água do mar global", destaca, citado pela UC, José Xavier.

"O que se decidir politicamente em relação ao ambiente na próxima década vai ter consequências para as gerações seguintes", sublinha José Xavier, considerando que, no entanto, "ainda se está a tempo de agir".

Mas o tempo para agir "está a escassear", alerta o docente da FCTUC e coautor do artigo da "Nature".

Antártida pode fazer subir água do mar em mais de um metro

As decisões da próxima década vão determinar o futuro da Antártida e do mundo, que pode ter um aumento do nível do mar superior a um metro, alertam cientistas noutro estudo divulgado esta quarta-feira.

No trabalho publicado numa edição especial da revista científica "Nature", sobre a Antártida, os cientistas afirmam que o tempo se está a esgotar para salvar o ecossistema antártico e que se não forem tomadas decisões corretas para preservar a Antártida nos próximos 10 anos o mundo sofrerá as consequências.

O estudo avalia o estado da Antártida em 2070 sob dois cenários, um em que não são tomadas medidas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa nem outras medidas de proteção, e outro em que são tomadas medidas de proteção ambiental.

Os autores do trabalho, no qual se incluem cientistas do Imperial College London, uma instituição universitária britânica, dizem que há mudanças que já são irreversíveis e que se nada for feito até 2070 haverá uma "perda dramática" das principais plataformas de gelo e um grande aumento do nível das águas do mar.

Ao contrário, dizem, com baixas emissões de gases com efeito de estufa as plataformas de gelo permanecem, a ameaça da subida do nível do mar é minimizada, a acidificação dos oceanos não piora e os ecossistemas permanecem intactos, e o aumento das temperaturas do mar não iria além dos 0,7 graus celsius.

No pior dos cenários, alertam os responsáveis, o nível das águas dos oceanos subiria um metro, podendo chegar a 3,5 metros, as correntes oceânicas mudariam, a água do mar aquecia mais dois graus e a acidez dos oceanos alcançaria um ponto em que algumas criaturas marinhas seriam incapazes de formar as conchas adequadamente.

Os cientistas defendem a importância de se manter o atual cenário de proibição de extração de recursos (como carvão ou minério de ferro) na Antártida, e de se minimizar os impactos do turismo e da pesca, e enfatizam a necessidade de cooperação internacional e a criação e aplicação de regulamentos para a Antártida, apoiados em programas de investigação.

Perda de gelo na Antártida é contínua e está a aumentar

A Antártida está a perder gelo continuamente, tendo desaparecido 34 mil quilómetros quadrados da plataforma de gelo desde 1950, indica um terceiro estudo divulgado esta quarta-feira.

Numa edição especial da revista "Nature" explica-se que a monitorização da Antártida através de satélite mostra a contínua perda de gelo para os oceanos, de acordo com registos feitos durante décadas por cientistas das Universidades de Leeds (Reino Unido), da Califórnia (em San Diego, Estados Unidos) e de Maryland (Estados Unidos).

O estudo indica que desde a era dos satélites não se tem aparentemente notado mudanças gerais muito significativas, mas que há "sinais de um declínio de longo prazo". Segundo os cientistas as plataformas de gelo dos mares de Amundsen (que já teve três quilómetros de espessura) e de Bellingshausen estão 18% mais finas do que no início dos anos 90. E o aumento acentuado das temperaturas do ar fez colapsar plataformas de gelo na península antártica.

Mais de 150 estudos tentam determinar quanto gelo o continente está a perder.

Um deles, também publicado na edição especial, envolveu 84 cientistas e 44 organizações, que combinaram 24 pesquisas por satélite. E com essas pesquisas concluíram que entre 2012 e 2017 a Antártida perdeu 219 mil milhões de toneladas de gelo por ano, três vezes mais do que antes de 2012.

Concluíram estes cientistas que as perdas de gelo da Antártida aumentaram os níveis do mar em 7,6 milímetros desde 1992, dois quintos desse aumento (três milímetros) nos últimos cinco anos.

Os especialistas dizem que a Antártida armazena água congelada suficiente para elevar o nível global dos mares em 58 metros, pelo que, justificam, estes estudos são importantes para perceber os impactos atuais e futuros das alterações climáticas.

Andrew Shepherd, da Universidade de Leeds, frisou que as perdas de gelo na Antártida aumentaram na última década, o que faz com que o nível da água do mar suba mais rapidamente do que em qualquer outro período nos últimos 25 anos, o que tem de ser uma preocupação dos governos.

Erik Ivins, da NASA, avisou que o estudo pode ser considerado o mais fiável sobre a massa de gelo do continente, tendo em conta o período de observação, o número de participantes e as técnicas utilizadas.

Em resumo, segundo os cientistas, a Antártida Ocidental e a Península Antártica perderam gelo e o crescimento da camada de gelo na Antártida Oriental também foi reduzido.

A Antártida Ocidental perdeu 53 mil milhões de toneladas de gelo por ano na década de 1990, passando para 159 mil milhões a partir de 2012. Desde o início do século o extremo norte do continente também está a perder anualmente 25 mil milhões de toneladas de gelo. A única zona de equilíbrio, a leste, ganhou apenas cinco milhões de toneladas de gelo por ano, nos últimos 25 anos.

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