Violência

Balas a 90 cêntimos. Na Venezuela até os criminosos sentem a crise

Balas a 90 cêntimos. Na Venezuela até os criminosos sentem a crise

"Se gastas as balas todas, estás a disparar 15 dólares" (cerca de 13 euros). A afirmação é de El Negrito, "temido gangster de rua" nas palavras de um repórter da agência Associated Press na Venezuela. Ter uma arma "tornou-se um luxo". As balas estão mais caras, vendidas a um dólar (cerca de 90 cêntimos) cada.

Na condição de ser identificado apenas pelo "nome de rua" e fotografado com capuz e máscara para evitar "atrair atenção indesejada", El Negrito, de 24 anos, falou à Associated Press sobre a vida dos criminosos na atual Venezuela. De acordo com a reportagem, a crise chega a todos e, com menos dinheiro a circular nas ruas, os roubos já não rendem tanto como antes.

"Se perdes a pistola ou a polícia a apreende, estás a deitar fora 800 dólares" (cerca de 716 euros), afirmou o gangster, que revela dormir com a pistola debaixo da almofada e que perdeu a conta ao número de pessoas que matou.

Ainda segundo a Associated Press, apesar da crise económica naquele país, os ataques armados e homicídios estão a diminuir inesperadamente. Especialistas do Observatório Venezuelano de Violência, um grupo sem fins lucrativos com sede em Caracas, estimam que os homicídios diminuíram até 20% nos últimos três anos, com base em registos da comunicação social e fontes de morgues locais.

Como resultado do caos na Venezuela, o crime mudou. Enquanto os assaltos na rua, roubo de cabos telefónicos de cobre ou de gado estão a crescer, o tráfico de drogas e mineração ilegal de ouro tornaram-se atividades padrão para o crime organizado.

Quando a noite cai, as ruas de Caracas ficam vazias, uma vez que a maioria dos moradores obedece ao alarme para recolher a casa por segurança. Apesar da queda significativa dos homicídios, os venezuelanos continuam a não usar os telemóveis nas ruas e muitos deixam alianças de ouro e prata em lugares seguros, enquanto outros "se habituaram a olhar por cima do ombro para ver se estão a ser seguidos".

El Negrito lidera um grupo de contrabandistas chamado "Crazy Boys", que faz parte de uma rede criminosa em Petare, uma das maiores e mais temidas favelas da América Latina. O gangster, que aceitou dar a entrevista num esconderijo em Caracas, disse que o grupo agora realiza cerca de cinco sequestros por ano, um número consideravelmente abaixo dos anos anteriores.

Como muitos dos parceiros, El Negrito considera deixar o comércio na Venezuela e emigrar. Os vizinhos dizem que a expectativa de vida dos criminosos de rua em Petare é de cerca de 25 anos. O gangster contou que algumas pessoas deixaram o mundo do crime e procuraram um trabalho mais honesto no estrangeiro, por temer penalizações duras noutros países onde as leis são verdadeiramente aplicadas.

"Hoje em dia ninguém está bem - nem os cidadãos honestos que produzem riqueza nem os criminosos que os atacam", disse El Negrito à Associated Press.