Abuso de menores

Caçadores de pedófilos. Quando o predador se torna presa na Internet

Caçadores de pedófilos. Quando o predador se torna presa na Internet

Chamam-lhes "caçadores de pedófilos". Grupos de ativistas que tentam apanhar predadores sexuais. A justiça popular diz que são "vigilantes" da Internet a proteger crianças indefesas. A polícia acha que estão a destruir a vida das pessoas em troca de "likes" no Facebook. Os números mostram que dezenas de abusadores foram condenados depois de serem caçados nas redes sociais.

É a história em que o predador se torna presa. Estes grupos começaram a "caçar" e a partilhar no Facebook as caras de supostos pedófilos no início da década, no Reino Unido. Desde então, surgiram várias comunidades de caçadores, com centenas de milhares de seguidores. A comunicação social britânica tem acompanhado as armadilhas destes ativistas e a sua relação complicada com a polícia. E outros países não ficam indiferentes.

Os grupos tornaram-se populares no Canadá e outros surgiram em países como a Austrália. Nos últimos dois anos, começaram a aparecer nos EUA. A organização de notícias "Quartz" fala num "fenómeno global", numa reportagem publicada em julho. Em janeiro, uma investigação da emissora NBC fazia referência a cerca de 30 grupos ativos de "caçadores" nos EUA. A "Quartz" voltou a encontrar 24 desses grupos no mês passado e uma variedade de páginas e grupos que se identificam da mesma forma, mas apenas partilham informações sobre criminosos sexuais capturados pela polícia.

Uma "explosão" de casos na Escócia

Um dos principais grupos, ou aquele que é considerado "o mais ativo na Escócia", é o "Wolf Pack Hunters". No Facebook, são seguidos por mais de 100 mil pessoas. "Este grupo é uma resposta da comunidade à epidemia de grooming [aliciamento de menores] na Grã-Bretanha", escrevem num texto de apresentação. Segundo o jornal britânico "The Guardian", tem havido uma "explosão" de casos de abusos desvendados por estes ativistas.

Na Escócia, nos últimos 18 meses, os advogados descreveram uma "explosão" de casos que passam pelos tribunais, com base em evidências recolhidas por esses grupos quando um dos membros, fingindo ser uma criança, se envolve na Internet com um suposto predador. Só o "Wolf Pack" está a realizar uma média de quatro denúncias por mês em todo o país. Especialistas apontam para um aumento desta atividade, resultando em centenas de processos.

Ao mesmo tempo, começam a surgir algumas questões sobre os métodos utilizados por estes ativistas. Em junho, um chefe da polícia de Dundee descreveu o uso das provas daquelas grupos como "uma afronta ao sistema de justiça". Os detalhes dos próprios grupos sobre os seus métodos e motivações são escassos.

Grupos altamente organizados

De acordo com a investigação do "The Guardian", estes grupos são altamente organizados e esforçam-se para reunir o maior número de provas úteis para a polícia e tribunais. Os elementos são muitas vezes autodidatas em procedimentos legais. Partilham conselhos mais gerais sobre segurança na Internet e apoio a vítimas de abuso sexual com os milhares de seguidores nas redes sociais. E afirmam ter relações positivas com a polícia local.

O Conselho Nacional de Polícia estima que em todo o Reino Unido existam cerca de 100 incidentes a cada semana, associados a 190 grupos de "caçadores". A presença online destes ativistas torna difícil localizá-los, mas o "The Guardian" tem conhecimento de pelo menos 10 grupos ativos na Escócia, enquanto outros trabalham no estrangeiro. Muitos recusam falar com os meios de comunicação social.

De acordo com dados partilhados pelos "Wolf Pack Hunters", de Glasgow, os membros realizaram mais de 80 denúncias desde meados de outubro de 2017 até ao final de março de 2019, que resultaram na detenção e acusação dos supostos agressores. Até agora, 25 dos detidos confessaram ou foram declarados culpados.

Outro grupo ativo, "Child Protectors Scotland" (120 mil seguidores), realizou 54 denúncias desde o início de novembro de 2017, resultando em sete condenações e muitos outros casos a aguardar julgamento. O grupo "Keeping Kids Safe" (mais de 30 mil seguidores), originalmente criado na Escócia em meados de 2017 e que agora opera em Inglaterra, realizou 12 denúncias, 10 das quais resultaram em condenações, com os outros dois casos ainda em tribunal.

De acordo com a investigação, as sentenças variavam entre ordens de retorno à comunidade e penas até três anos de prisão, com todos os condenados a serem colocados no registo de criminosos sexuais por períodos variáveis ​​de tempo.

Polícia alerta para acusações falsas

As atividades destes "caçadores" foram alvo de muitas críticas desde que começaram a aparecer no início da década, com relatos de identidade equivocada de supostos agressores, chantagem, violência e suicídios ligados à exposição na Internet.

Em maio, o chefe de polícia Simon Bailey, que lidera a resposta do Reino Unido aos casos de abuso sexual infantil, afirmou que os vigilantes estão a atrasar as investigações das autoridades e a destruir a vida das pessoas em troca de "likes no Facebook". Os ativistas "estão a fazer com que as pessoas sejam injustamente acusadas, atacadas e até a acabar com as próprias vidas", disse ainda, citado pela "Sky News".

As provas recolhidas pelos "caçadores" são cada vez mais utilizadas para processar agressores, mas a polícia está dividida e alguns temem que os métodos dos grupos possam impedir o seu próprio trabalho.

"Não posso negar que eles [ativistas] ajudaram nas condenações, mas também levaram as pessoas a serem chantageadas, sujeitas a danos corporais graves, a ser acusadas injustamente, a cometer suicídio como resultado de intervenções, vidas familiares sendo completamente destruídas. Em nome de quê? 'Likes' do Facebook", declarou Simon Bailey.

Em outubro de 2017, David Baker suicidou-se dias depois de ser confrontado pelo grupo de caçadores de pedofilia "Southampton Trap". O jardineiro de 43 anos de Hampshire, que supostamente terá combinado encontrar-se com uma menina de 14 anos num parque de estacionamento de supermercado, foi detido pela polícia, interrogado e libertado sob investigação. Um inquérito determinou que as publicações nas redes sociais do grupo de vigilantes foram um "fator determinante" no suicídio.