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Entrevista

Centenário: "Conseguem imaginar um homem a abraçar uma árvore? Venham à Finlândia!"

Centenário: "Conseguem imaginar um homem a abraçar uma árvore? Venham à Finlândia!"

Um português e uma finlandesa explicam-nos a juventude da Finlândia, que celebra 100 anos esta quarta-feira.

Hugo Pinto, analista de Braga que escolheu a Finlândia para viver, e Maija Väätämöinen, finlandesa, mestre em Ciências Sociais, partilham desde Helsínquia a sua visão sobre a Finlândia, que assinala esta quarta-feira o centenário da sua independência. Contam-nos da espécie de perseverança que construiu a nação, libertando-a do domínio ora sueco, ora do russo, ora do clima. Contam-nos da frieza que não o é de um povo silencioso capaz de ouvir a floresta e de abraçar uma árvore.

A Finlândia é uma das nações mais jovens do mundo. E uma das mais avançadas socialmente. Isso deve-se a essa juventude?

Hugo: Os finlandeses são gente honesta e trabalhadora que sobreviveu a invernos e guerras e para quem o sucesso na vida exige sempre esforço. Há vários provérbios com referências a valores como ser humilde, não ser orgulhoso, nem exibir a riqueza. O sucesso finlandês tem a ver com essa mentalidade, que penso decorrer das dificuldades por que passaram, a começar pelo clima extremo, mas sobretudo pelas guerras que travaram num passado não tão distante. Depois da II Guerra mundial, a Finlândia ficou com uma dívida enorme - tecnicamente, perdeu a Guerra porque aliou-se à Alemanha, não por motivos ideológicos, mas para travar a invasão russa. E pagaram até ao último cêntimo.

Maija: E não esqueças a nossa língua e a sua importância na nossa cultura e até na nossa independência. A obra "Kalevala" (compilação de contos, talvez a obra mais importante da Finlândia, comparável aos Lusíadas de Camões) teve um papel fundamental na criação do sentimento de herança comum e da tradição poética popular que tínhamos como nação. Inspirou muitos artistas finlandeses mundialmente famosos na criação de uma iconografia nacional que fez as pessoas acreditarem num nacionalismo finlandês e na Finlândia como um país. A arte estimulou o sentimento de unidade, a compreensão do nós diferentes dos outros - os suecos e os russos.

O Hugo chegou à Finlândia como investigador na Universidade de Aalto, em Helsínquia. Porquê a escolha? Pelo lugar cimeiro da Finlândia na Educação?

Hugo: Quando decidi mudar-me para a Finlândia pesou o conhecimento que tinha da cultura dos países nórdicos, nomeadamente a importância da educação e da investigação. E correspondeu às minhas expectativas. Como investigador tive condições fantásticas. O conhecimento adquirido é um valor muito apreciado. De facto explica muito do sucesso da Finlândia. Veja-se a Nokia: criada e desenvolvida num país com poucos mais de cinco milhões de habitantes, dominou o mercado mundial de telecomunicações. Hoje tenho o privilégio de trabalhar numa instituição financeira internacional que visa o desenvolvimento próspero e sustentável da região nórdica e do Báltico através do financiamento de projetos que melhorem a competitividade e o ambiente.

Maija: A educação gratuita e universal é o nosso mais importante trunfo. A educação básica finlandesa foi uma inovação. Gratuita é destinada a todos. A profissão do professor é extremamente respeitada. Tive a sorte de poder frequentar boas escolas e receber uma boa educação, de seguir um caminho e ser apoiada. Isso faz de mim uma contribuinte satisfeita. O âmago do nosso estado social é toda a gente ser tratado como igual e beneficiar de forma igual, rico ou pobre. Por isso é que frequentamos as mesmas escolas independentemente a origem e socializamos como todo o tipo de pessoas. E por isso é que vamos aos mesmos centros de saúde e hospitais. Sabemos que apesar de haver diferenças, podemos confiar nos nossos sistemas de saúde e educação e ter as mesmas oportunidades na vida. As coisas têm mudado um pouco em 30 anos, mas esta é a ideologia.

Falem-nos um pouco dos finlandeses e de como a sua maneira de ser influencia o sucesso do país. São frios como o tempo, como se diz?

Hugo: Na Finlândia encontrei uma cultura única cujas particularidades começam logo na língua, que não tem relação com outras línguas e por isso é muito difícil de aprender. As pessoas são de facto muito reservadas, não por frieza, mas por respeito pelo espaço do próximo, numa sociedade baseada na confiança e no bem comum e onde o cumprimento das regras acontece de forma automática e natural. Sim, a amizade dos Finlandeses é difícil de conquistar, mas uma vez conseguida é para a vida.

Maija: O silêncio é ouro. As emoções são escondidas. Mas há sina e há floresta. E há arte. Há fantásticos compositores, cantores, autores e artistas, uma tradição de coro e o Kantele, um instrumento único cujo importância também foi reconhecida no "Kalevala". Portanto, mesmo que não mostremos as nossas emoções em público, há canais mais íntimos para isso. E há tango. E havia aqueles lamentos que as mulheres cantavam em rituais importantes, como casamentos e funerais. Há algo de muito simpático nesta forma finlandesa de dar espaço aos outros, de respeitar mantendo o silêncio. Isso aplica-se também às florestas. Quando vamos à floresta, ficamos em silêncio. Ouvimos e respeitamos a beleza circundante. Conseguem imaginar um homem a abraçar uma árvore? Venham à Finlândia! Eu vi homens fazer isso, por muito que nunca o admitam.

O país é politicamente dos mais avançados em termos de igualdade homem/mulher. Isso nota-se no dia-a-dia?

Maija: Regresso à educação universal. Até começa a haver a preocupação de que os rapazes estejam a ficar para trás, sobretudo na leitura, no ensino básico secundário. Estará o sistema de ensino a apoiar mais as raparigas? Há mais mulheres do que homens na universidade. Os homens ainda lideram muitas vezes na política e na economia, mas temos muitas histórias inspiradoras de mulheres. A Finlândia foi o primeiro país na Europa a dar o direito de voto às mulheres. Tarja Halonen foi presidente da Finlândia entre 2000 e 2012. Somos livres e independentes. E há muitas coisas pensadas para nos apoiar nas nossas vidas. Uma delas é o apoio à maternidade. Começou por ser concedida a pais com baixos rendimentos, em 1938, e foi alargado a todos em 1949.

O "sisu" é uma característica finlandesa intraduzível, como a saudade portuguesa. Define à Finlândia?

Hugo: Concerteza, sisu é talvez a palavra finlandesa de que mais gosto. Reflete um misto de perseverança, resiliência, espírito de superação e muita humildade. Traduz-se no facto de os finlandeses nunca estarem satisfeitos com o que conseguem, acham sempre que podiam ter feito melhor, e mesmo quando sucesso é impossível de esconder, encaram-no com muita humildade.

Maija: Se queres conseguir alguma coisa na vida, precisas de sisu. Significa persistência, acreditares em ti, coragem e, de facto, caracteriza muito bem a mentalidade e a cultura finlandesas. É preciso sisu para nadar em águas frias no inverno (avanto) e para esquiar até à escola quando estão 20 graus negativos. Precisámos do sisu para transformar esta terra remota do hemisfério norte num sítio onde é possível viver.

Como se está a viver o centenário?

Hugo: Como cidadão de um país com mais de 800 anos de historia, é com curiosidade que oiço histórias de avôs de amigos que estiveram ligados a esta conquista da história da Finlândia.

Maija: Para mim é um tributo a um povo silencioso e humilde que acreditou no bem e pensou no futuro e nas gerações seguintes. O meu avô foi capitão na guerra, um homem sensato e grande coração cuja herança quero celebrar. Vou acender uma vela por ele, ouvir Sibelius e fazer um brinde à Finlândia.

Perfil

Com 5,35 milhões de habitantes (17 por km2), a Finlândia, "Suomi", ou "País dos Mil Lagos", é o terceiro país menos povoado da Europa, depois da Noruega e da Islândia. Foi povoada pelos Lapões, por nómadas estonianos e húngaros, mistura de que nasceu a língua, um idioma do grupo linguístico fino-úgrico, próximo do mongol e do turco.

Cronologia
1157. Os suecos do rei Érico IX, o ""Santo"", ocupam o país em 1157.

17 de setembro de 1809. A Suécia cede a Finlândia ao czar Alexandre I no âmbito do Tratado de Hamina ou Fredrikshamm. O país torna-se um grão-ducado.

1812. Helsínquia, fundada pelos suecos em 1550, passa a capital, destronando Turku.

28 de fevereiro de 1835. O médico Elias Lönnrot publica uma coletânea de 32 cantos inspirados nos contos tradicionais da Carélia, sob o título de "Kalevala", o "País dos Heróis", que inspirou a cultura nacional. 28 de fevereiro é o dia da identidade finlandesa.

20 de julho de 1906. O czar Nicolau II concede aos finlandeses liberdades fundamentais como o direito de voto para as mulheres.

6 de dezembro de 1917. Declaração da independência na ressaca da Revolução Russa e da desordem do pós-guerra mundial, seguida da uma guerra entre tropas finlandesas e guardas vermelhos bolcheviques finlandeses, aliados dos russos.

30 de abril de 1918. A independência torna-se definitiva. Em outubro coroam rei o príncipe alemão Frederic Charles de Hesse, um mês antes do fim da Guerra Mundial e da derrota da Alemanha em 11 de novembro de 1918.

17 de julho de 1919. Proclamação da República.

1940. Estaline ataca a Finlândia sem declaração de guerra. A "Guerra de Inverno"" termina a 12 de março, com o Tratado de Moscovo, em que a Finlândia cede a Carélia à União Soviética.

Junho de 1941. Para se proteger dos russos, a Finlândia apoia Hitler na invasão da União Soviética.

10 de fevereiro de 1947. O Tratado de Paris devolve a independência à Finlândia, sem a Carélia, mas tem de alinhar a política externa com Moscovo em troca da preservação de suas instituições democráticas, até o fim da Guerra Fria.

1 de janeiro de 1995. Entrada na União Europeia.