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Cuba e EUA anunciaram degelo há um ano

Cuba e EUA anunciaram degelo há um ano

Após mais de 50 anos sem relações diplomáticas, os Estados Unidos e Cuba surpreenderam o mundo ao anunciar, a 17 de dezembro de 2014, que os dois países iam iniciar negociações para uma aproximação considerada histórica.

Um ano depois do anúncio, as duas partes saúdam os passos dados até hoje - entre eles a oficialização do restabelecimento de relações diplomáticas e a reabertura de embaixadas em Washington e Havana em julho último -, mas admitem que o processo continua a ser complexo e a exigir um trabalho contínuo.

"A normalização de relações é um processo complexo e não devemos esperar resultados imediatos", afirmou, em declarações enviadas à Lusa, um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, salientando, no entanto, que nos últimos doze meses os países conseguiram encontrar áreas "de cooperação viável" e "de interesse mútuo".

"A normalização significa envolver em vez de isolar Cuba. Isso permitiu-nos focar em áreas de interesse mútuo, incluindo o reforço da segurança, a construção de pontes entre os dois povos e a prosperidade económica para os cidadãos dos dois países", indicou o porta-voz.

Segundo o representante, os países estão a trabalhar e continuarão a trabalhar sobre diversas questões, através de uma comissão bilateral.

Entre elas constam a cooperação nas áreas económica, cultural e social, mas também "os desafios mais difíceis" como os direitos humanos, as indemnizações reclamadas por norte-americanos por expropriações e o regresso de fugitivos.

Sobre as "áreas de diferença" que existem entre norte-americanos e cubanos, o porta-voz do Departamento de Estado acredita que um "compromisso intensificado" irá permitir "articular essas diferenças de forma clara, direta, e quando apropriado, pública".

"A mudança não vai acontecer de um momento para o outro, mas estamos a caminhar na direção correta", frisou.

Para a embaixadora de Cuba em Portugal, Johana Tablada de la Torre, entre os progressos alcançados no último ano "talvez o mais importante" seja "o facto de os dois países terem demonstrado que têm vontade de avançar para melhorar as relações".

"Foram estabelecidos novos instrumentos e acordos que ampliam o diálogo e o intercâmbio em novas áreas e foram reabertas, depois de meio século, as embaixadas", referiu à Lusa a representante diplomática de Havana em Lisboa, mencionando que nos últimos meses Cuba e Estados Unidos abordaram diversas matérias, desde os assuntos migratórios, até à componente de segurança aérea, defesa do meio ambiente ou controlo de doenças epidémicas.

Mas, a embaixadora não esquece o assunto que continua a ser "a principal insatisfação" de Cuba: o embargo económico, comercial e financeiro imposto por Washington em 1962.

"Este processo e o novo discurso não foram acompanhados pelo levantamento do bloqueio, nem sequer dos seus aspetos mais irracionais. Continua a ser o maior sistema de sanções unilaterais que existe no mundo e é aplicado de forma rigorosa, impedindo Cuba e os cubanos de desenvolverem o seu máximo potencial", defendeu.

A representante diplomática reconhece o apelo ao Congresso norte-americano feito pelo Presidente Barack Obama para a eliminação do embargo, mas critica o governante pelo facto de não ter utilizado os seus "quase ilimitados poderes para remover, mediante decisões executivas, esta política cruel".

Mesmo assim, segundo a embaixadora, as "poucas medidas" anunciadas foram "positivas" e modificaram "áreas muito específicas das sanções unilaterais" como as telecomunicações, algumas operações bancárias e a ampliação das categorias para as viagens de norte-americanos à ilha liderada por Raul Castro (o turismo continua proibido).

O Departamento de Estado recorda que Obama, dentro da sua autoridade presidencial, assumiu um conjunto de medidas para apoiar o crescimento do setor privado em Cuba e fortalecer as relações entre os cidadãos dos dois países, mas também salienta que Havana pode ajudar a persuadir o Congresso "mostrando progressos ao nível dos direitos humanos e em outras questões de interesse para os Estados Unidos".

"O embargo foi sempre como uma rua de dois sentidos. Os dois governos devem trabalhar para eliminar as restrições que têm criado dificuldades aos cubanos", referiu o porta-voz.

Para os próximos meses, Johana Tablada de la Torre espera que Obama (que cumpre em 2016 o seu último ano de mandato) "acompanhe finalmente as palavras com ações" que permitam a Cuba, por exemplo, utilizar o dólar nas suas transações internacionais, aceder a créditos e aos serviços de organizações financeiras internacionais, como é o caso do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

"Um diálogo respeitoso e construtivo colocou-nos no ponto atual. (...) Nos poucos temas em que avançámos foi possível identificar tudo o que podemos fazer ainda em benefício dos dois povos", concluiu.

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