Indonésia

Descendentes do rei de Sica querem museu para tesouro português

Descendentes do rei de Sica querem museu para tesouro português

Os descendentes do rei de Sica, na região oriental da ilha indonésia das Flores, querem construir um museu para colocar o tesouro oferecido pelos portugueses em 1607 e vão pedir apoio a Portugal.

O tesouro, localmente conhecido pela palavra portuguesa "regalia", é composto por um capacete, dois colares com esferas, um cetro, entre outras peças, e encontra-se guardado numa caixa na casa da família de Miguel da Silva.

No século XVII, o rei de Sica, Dom Alexius Ximenes da Silva, desolado com a violência e o número de mortes na sua terra, viajou até Malaca, na Malásia, em busca da vida eterna, mas lá foi-lhe dito pelos governantes portugueses: "O lugar que procuras não existe neste mundo. Existe apenas no céu".

Então, foi oferecido à família um tesouro, que conferiu à família um estatuto de hegemonia parcial em Sica e arredores e, mesmo durante a ocupação holandesa, a bandeira portuguesa foi ali hasteada.

Para ver o tesouro - prémio para a lealdade do rei de Sica a Portugal - a tradição obriga a um ritual que envolve mascar folhas de bétel, embora hoje em dia a prática seja oferecer dinheiro à família.

Óscar Pareira, cuja esposa é neta do rei de Sica, foi eleito presidente da recém-criada Congregação dos Familiares dos Reis das Flores, e é nessa qualidade que diz pretender solicitar apoio a Portugal para construir o museu.

"Eles têm de fazer um museu de família e não do Governo", até porque "o governo e a regência [de Sica] não têm dinheiro" para tal, acrescenta Óscar Pareira, que faz parte de uma cultura onde ser "branco" ainda é sinónimo de posse de dinheiro, daí que muitos indonésios evitem o sol e a praia.

Na primeira reunião da Congregação dos Familiares dos Reis das Flores, há cerca de três meses, os participantes decidiram "fazer uma organização para instar o governo da Indonésia a ajudar as famílias" a preservar o património real, mas até agora não encontraram nenhum doador, lamenta.

Segundo o presidente da congregação, o projeto envolve a restauração de antigas casas dos reis das Flores e a proteção de "todas as regalias", bem como a preservação da herança imaterial, através da organização de eventos culturais.

Óscar Pareira adianta que os planos incluem a construção de um "pequeno monumento" em frente à igreja da aldeia da Sica para lembrar o padre Le Cocq D'Armandville, que chegou às Flores no âmbito da evangelização portuguesa e que construiu aquela igreja em 1880.

Óscar Pareira, que descende de um soldado português, mostra-se empenhado em promover a herança lusa, em especial em "fazer uma festa mais bonita" em Sica na Semana Santa, à semelhança da de Larantuca, que atrai milhares de pessoas na Páscoa.

Em 1512 o capitão Francisco Serrão chegou às ilhas Molucas, ricas em especiarias, o 'petróleo' da altura, mas a procura de refúgio nas águas de Solor trouxe os mercadores e os missionários católicos portugueses também para a região das Flores.

Apesar de os portugueses terem sido os primeiros europeus na Indonésia - uma herança visível no património cultural, linguístico e religioso do país, em especial nas Flores, única ilha maioritariamente católica do arquipélago -, foram os holandeses que colonizaram o país.

Em 1851, o novo governador de Timor, Solor e Flores, Lima Lopes, com uma administração pobre, aceitou vender as Flores e as ilhas próximas por 200.000 florins (antiga moeda holandesa), sem consultar Lisboa, tendo sido demitido por isso, mas a decisão foi irrevogável.

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