Canadá

Dois suspeitos e três mortes. "A mais terrível história de amor de sempre"

Dois suspeitos e três mortes. "A mais terrível história de amor de sempre"

Dois jovens de 18 e 19 anos são suspeitos dos homicídios de um casal de turistas e de um docente universitário, ocorridos a 3000 quilómetros da zona onde são procurados.

Chynna Deese, alegre, loira, 24 anos, limpa o pára-brisas da Chevrolet azul de 1986 de Lucas Fowler, alegre, loiro, 23 anos. Uma simplicidade como tudo neles, a roupa, a vida - ele é australiano e viaja e estava agora parado no oeste do Canadá, num rancho, a aprender a criar gado; ela é norte-americana e foi ter com ele, como ia frequentemente onde ele estivesse no mundo, desde que cruzaram os olhares azuis no azul do horizonte da Croácia. Ele acaba de abastecer a carrinha e abraçam-se, porque sim, porque o amor é assim. Vão explorar o norte, o Alaska, o que houver para explorar. Iam.

É a última imagem da história de amor destes jovens, a história que o pai dele, polícia na Austrália, concluiu ser a "pior de sempre". A imagem é da videovigilância de uma estação de serviço em Fort Nelson, no norte da British Columbia e data do dia 13 de julho. É a de duas pessoas que viajam com a pessoa que amam. É dia 15 quando os corpos deles são descobertos, baleados, junto à autoeestrada do Alaska. A carrinha também. O pior epílogo do amor.

Buscas nos pântanos

Era 12 de julho quando Kam McLeod, 19 anos, e Bryer Schmegelsky, 18, largaram de Port Alberni, na ilha de Vancouver, um Canadá de poucas oportunidades que entra quase nos EUA. Vão procurá-las para o Território Yukon, marginado pelo Alaska. Ligam de quando em vez, deve ser Kam a conduzir, Bryer não tem carta. E ligam de Whitehorse. A dizer que vão arrancar de novo. E silêncio. São assinalados como desaparecidos, a família teme o pior, um acidente, algo.

Já é dia 19 quando a pick-up Dodge vermelha e cinzenta de McLeod e Schmegelsky aparece desfeita pelas chamas. Não muito longe está o corpo de Leonard Dyck, professor de botânica na Universidade de British Columbia, em Vancouver. Baleado. Mas nada liga isto ao malogrado casal morto a 480 quilómetros dali. Exceto a estranheza.

Até que os desaparecidos são vistos num Toyota RAV 4 no centro do Canadá. E depois filmados numa loja centenas de quilómetros adiante, a caminho do leste. Até que o RAV 4 também aparece queimado, no fim da estrada. É assim que quem conhece descreve Gillam, terra de 1800 almas onde a estrada acaba. Aí, já a Polícia Montada do Canadá associara as histórias e declarara aberta a caça ao homem.

Faz esta segunda-feira uma semana que o sinal se perdeu. Faz vários dias que a Polícia e militares sobrevoam o norte de Manitoba, território de ursos, lobos, pântanos, moscas e mosquitos, território de mato sem estrada, sem alimento, território de ninguém onde ninguém sobrevive. Admite-se, já, que possam ter mudado de aparência. Não há registo de roubo de automóveis, a hipótese é a de que estão apeados.

Ou conseguiram alguma boleia, apesar dos avisos de que são perigosos. Porque sabe-se agora quem são Kam e Bryer na sua face escondida: Kam é discreto, tímido e bem-disposto, "normal", mas acompanha Bryer e ambos são fãs de jogos online. É dessa comunidade que vem alguma luz.

No ano passado, Bryer enviou a um jogador com quem interagia fotos envergando um camuflado - provavelmente com aquele que aparece na videovigilância - e cruzes suásticas. Falava-lhe, ou queria falar-lhe, do bom do regime nazi. A um amigo de Port Alberni com quem se juntava a jogar, Bryer dizia: "Imagina se isto fosse a sério". Com outro disse a palavra milícias.

Tem uma espingarda de ar, para desportos de tiro, e, conta-se, é fascinado pela Rússia. Aprendeu até russo, cuja pronúncia adotava frequentemente, e andava por sites pró-Putin. E pró-Trump. O pai, Alan, admite que Bryer tenha viajado a caminho do suicídio. Viajou semeando a morte, num percurso incongruente.