Espanha

Embaixador de Portugal atribui polémica sobre circum-navegação às fake news

Embaixador de Portugal atribui polémica sobre circum-navegação às fake news

O embaixador de Portugal em Espanha, Francisco Ribeiro de Menezes, defendeu, esta quinta-feira, em Madrid que a controvérsia levantada recentemente sobre a autoria da primeira viagem de circum-navegação da Terra é da responsabilidade de fake news.

"Lamento que [...] meio milénio mais tarde [Fernão de] Magalhães e [Sebastião] Elcano tenham sido vítimas de 'fake news'", disse Francisco Ribeiro de Menezes num pequeno-almoço informativo com altos quadros de empresas espanholas e diplomatas de países com interesse em Portugal.

Na apresentação que fez nessa reunião organizada pelo Executive Forum e o jornal digital VozPópuli, com a colaboração do CaixaBank, o embaixador assegurou que Portugal nunca pretendeu "entrar numa concorrência estéril histórica com Espanha".

O diário ABC, associado à direita espanhola, publicou no início do ano uma notícia em que citava fonte não identificada do Ministério da Cultura espanhola para avançar que Lisboa estava a promover uma candidatura unilateral, junto da UNESCO, da primeira viagem de circum-navegação do globo a património da humanidade onde era ignorado o papel de Espanha nesse feito, assim como o de Elcano.

"Nunca tivemos a intenção de usurpar seja o que for a respeito" dessa viagem, insistiu Francisco Ribeiro de Menezes, acrescentando que Portugal e Espanha terão um programa conjunto para as comemorações dos 500 anos da viagem, para além dos programas nacionais já anunciados.

Entretanto, a Real Academia de História de Espanha divulgou no passado domingo um relatório, elaborado a pedido do ABC, em que esclarece que na primeira viagem de circum-navegação da Terra "é incontestável a plena e exclusiva autoria espanhola da empresa".

"Penso, sinceramente, que não teria sido necessário pedir um relatório, porque essa história conhecemos e sabemos muito bem qual é", afirmou o embaixador português.

Ribeiro de Menezes considerou que não é necessário "reescrever" a história dos dois países e sublinhou que Portugal e Espanha devem "estar conscientes" de que estão a entrar numa "etapa nova" das suas "relações e amizade".

Os chefes da diplomacia de Portugal e de Espanha já tinham anunciado a 23 de janeiro último a apresentação conjunta de uma candidatura a património da humanidade da primeira viagem de circum-navegação do globo, depois de "dissipadas todas as dúvidas".

A primeira viagem à volta do Mundo, a bordo da nau Victoria, começou em 20 de setembro de 1519, em Sanlúcar de Barrameda, no sul de Espanha, e terminou em 06 de setembro de 1522, no mesmo local.

Fernão de Magalhães, que planeou a viagem que acabou por ser financiada pelo reino de Espanha, não terminou a expedição, uma vez que morreu nas Filipinas, em 1521, aos 41 anos, tendo esta sido concluída pelo navegador espanhol Sebastião Elcano.

Portugal e Espanha estão a organizar inúmeras iniciativas que terão lugar até 2021 para assinalar esta viagem histórica iniciada há 500 anos.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, considerou na última terça-feira que Portugal e Espanha deveriam envidar esforços conjuntos contra os populismos, a propósito da "polémica artificial" relativamente à paternidade da primeira viagem de circum-navegação.

O chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, no decurso de uma audição perante a Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portugueses, realizada no mesmo dia, explicou que o projeto de circum-navegação do Mundo de Magalhães foi na altura recusado pelo rei português D. Manuel I, por "um motivo mais que legítimo", que foi para impedir "a violação grosseira do Tratado de Tordesilhas", onde Portugal e Espanha tinham dividido o Mundo.

"Mas nem a Academia Real de Espanha pode retirar aos portugueses este facto. Foi um português que atravessou com uma frota comandada por si o imenso Pacífico, e que descobriu o estreito, o Estreito de Magalhães", destacou o ministro.