Terrorismo

Empresário e filho do "rei da pimenta" entre os bombistas suicidas do Sri Lanka

Empresário e filho do "rei da pimenta" entre os bombistas suicidas do Sri Lanka

Mohammad Yusuf Ibrahim, um dos homens mais ricos do Sri Lanka, foi detido na quarta-feira. Na ressaca dos ataques do domingo de Páscoa, que causaram pelo menos 253 mortos, as autoridades cingalesas detiveram o "rei da pimenta" cingalês, pai de dois dos alegados homens-bomba.

A família de Mohammad Yusuf Ibrahim vivia numa casa apalaçada na zona de Mahawela Gardens e viajava de BMW, com motorista. O rico negociante de especiarias, que fez fortuna a comercializar pimenta, branca e preta, noz-moscada e baunilha, foi detido poucos dias após os atentados que dilaceraram o Sri Lanka e causaram pelo menos 253 vítimas, entre estas um português, Rui Lucas, de Viseu.

"Era conhecido por ajudar os pobres com dinheiro e comida. É impensável o que os filhos dele fizeram", disse um vizinho de Ibrahim, citado pelo jornal indiano "First Post", ainda incrédulo com a volta que o destino deu à vida do "rei da pimenta".

Agraciado pelo presidente do Sri Lanka "pelos serviços extraordinários a favor da nação", Ibrahim é pai de nove filhos, seis rapazes e três raparigas. Dois dos filhos morreram durante os ataques do Domingo de Páscoa. Inshaf Ibrahim, de 33 anos, detonou-se na sala de pequeno-almoço do hotel Shanri-La, diz o "First Post", citando fonte da família.

Dono de uma fábrica de cobre, Inshaf era casado com a filha de um rico joalheiro e conhecido por fazer donativos generosos aos vizinhos e empregados. "Era muito diferente dos outros patrões. Era feliz a trabalhar para ele", disse um dos empregados, identificado como Sorowar, em declarações àquele jornal indiano, à porta da fábrica de cobre, agora fechada, nos arredores de Colombo, a capital do Sri Lanka.

Inshaf era considerado um moderado do islão. Já o outro irmão que morreu nos atentados, Ilham Ibrahim, de 31 anos, exprimia abertamente ideologias extremistas e tinha participado em encontros do National Thowheed Jamath, o grupo local extremista suspeito de planear e executar o ataque, que foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

Um oficial cingalês, citado pelo jornal norte-americano "New York Times", diz que Ilham é um dos oito bombistas suicidas. O "FirstPost" conta outra história: Ilham fez-se explodir, matando a mulher e três filhos, quando a polícia foi à casa de família, após os atentados, quando as autoridades apertaram o cerco em busca de suspeitos. Pelo menos cinco polícias morreram também na explosão.

A única parte que parece certa, e com a qual todos concordam, é que na ressaca dos atentados alguém se fez explodir na casa de
Mohammad Yusuf Ibrahim, causando a morte a uma mulher, nora do magnata das especiarias, e três crianças.

O resto é mais difícil de apurar. As autoridades cingalesas têm mostrado relutância em identificar os bombistas, argumentando que pode prejudicar a investigação.

Maioria dos atacantes eram pessoas com instrução de classe média e alta

No entanto, numa conferência de imprensa, na quarta-feira, o vice-ministro da Defesa do Sri Lanka, Ruwan Wijewardene, levantara um pouco o véu sobre os suspeitos, dizendo que na maioria era pessoas com instrução de classe média e alta.

"Financeiramente são bastante independentes e as famílias estáveis a nível económico. Isso é um facto preocupante", disse. "Alguns estudaram no estrangeiro e tinham licenciaturas ou pós-graduações", acrescentou Ruwan Wijewardene.

A surpresa parece generalizada no Sri Lanka. "Nunca pensei que fossem deste tipo de pessoas", desabafou Sanjeewa Jayasinghe, um engenheiro informático a trabalhar numa casa vizinha à do rei da pimenta.

Outro dos suspeitos, identificado apenas como Mohamed, cursou engenharia espacial numa universidade do Reino Unido, antes de concluir os estudos na Austrália e de voltar ao país-natal.

Olhando para o historial de terrorismo dos últimos 50 anos, não é surpresa que o canto da sereia não tenha iludido apenas desvalidos da vida facilmente radicalizados por líderes carismáticos ou, mais recentemente, através de elaboradas e apelativas páginas de caciques online.

Uma longa linhagem de gente instruída levada à morte pelo radicalismo

Uma resenha elaborada pelo jornal britânico "The Guardian" recorda que as táticas suicidas se disseminaram em vários países da Europa nos anos de 1980 e 90, com jovens de famílias estáveis a envolverem-se em confrontos ativistas violentos.

O maior ataque terrorista da história, que causou cerca de três mil mortos nos EUA, em setembro de 2001, foi apoiado por Osama bin Laden, filho de um magnata das construções, educado em países ocidentais.

Nenhum dos radicais que pilotaram os aviões que destruíram as Torres Gémeas, em Nova Iorque, e afetou também o edifício do Pentágono, em Washington, tinha dificuldades financeiras. Alguns estudaram no Ocidente e tiram licenças de pilotagem nos EUA. Um terço dos atacantes tinha graus académicos, recorda o "The Guardian".

Entre a horda de seguidores que o Estado Islâmico granjeou nos primeiros anos de atividade, há muitos licenciados, de várias áreas de atividade, uns mais abastados do que outros, levados para terra de pó e pedras pelo sonho, banhado a sangue de milhares de inocentes, de um Califado.