Investigação

Execução à luz do dia em Berlim terá sido planeada em Moscovo

Execução à luz do dia em Berlim terá sido planeada em Moscovo

Bilhetes de avião, uma arma com silenciador e uma bicicleta como meio de transporte, para uma execução em plena luz do dia em Berlim. Estes são os ingredientes do assassinato de um ex-militar checheno, que leva as autoridades alemãs a suspeitar de que um plano executado por um agente russo poderá ter ligações políticas mais profundas.

Na última sexta-feira, a meio do dia, um homem de bicicleta aproximou-se de Zelimkhan Khangoshvili pelas costas, no parque Kleiner Tiergarten, disparou dois tiros na cabeça e fugiu em grande velocidade. Uma execução, segundo relatam testemunhas aos meios de comunicação locais.

Mas a eficácia do assassino terminou neste ponto. A polícia foi rápida a chegar e conseguiu deter o suspeito, que foi visto a atirar a bicicleta e arma para o rio Spree. Mergulhadores recuperaram a bicicleta e uma arma Glock 26 com um silenciador e detiveram um cidadão russo de 49 anos, identificado como Vadim S. Na casa onde estava a dormir, foi encontrada uma grande quantia de dinheiro e foi possível perceber que o homem tinha viajado até Berlim de Moscovo, via Paris, e tinha consigo um bilhete de regresso à capital russa, segundo relata a BBC.

Com estes dados na mão, a polícia acusou o suspeito de homicídio e investiga as ligações do caso ao Kremlin, tendo em conta quem era a vítima, um dissidente checheno, e um histórico de assassinato patrocinados pelo Estado russo, como o de Alexander Litvinenko, em 2006, e Sergei Skripal em 2018.

"Há indicação de que este crime foi planeado e terá motivações políticas", disse aos jornalistas um porta-voz da procuradoria de Berlim. "Se confirmarmos que um país como a Rússia está por detrás disto, temos um segundo caso Skripal em mãos, com tudo o que isso implica", disse, à revista "Der Spiegel", uma fonte não identificada ligada aos serviços de segurança alemães.

Zelimkhan Khangoshvili, a vítima deste assassinato, participou na segunda guerra da Chechénia contra as forças russas, no Cáucaso do Norte, entre 2001 e 2005. Mais tarde, alistou-se nos serviços de informação da Geórgia, onde terá participado em operações que pretendiam evitar que os muçulmanos da região se alistassem no Estado Islâmico.

Em 2015, depois de uma tentativa de assassinato em Tiblissi, fugiu para o Ucrânia e, em 2017, entrou na Alemanha, onde pediu asilo, por temer pela sua vida. O pedido foi rejeitado, mas havia um recurso pendente, que nunca foi decidido, segundo revela o jornal britânico "Telegraph".

Segundo o grupo "Human Rights Education and Monitoring Center", que procurava justiça para Khangoshvili, depois do atentado em Tiblissi, os "serviços especiais russos tinham um grande interesse nele", já que tinha tido uma participação importante na guerra. "Alguns dos seus camaradas também foram mortos depois da guerra", explicou a advogada georgiana Tamta Mikeladze à BBC.