Espanha

Ángel foi preso por um "ato de amor"

Ángel foi preso por um "ato de amor"

Madrileno de 69 anos auxiliou a mulher, doente terminal, a pôr fim a uma vida de esclerose múltipla. E gravou os últimos momentos.

María José Carrasco não aguentou mais o peso da dúvida. Havia 30 anos que vinha esgotando a vida numa esclerose múltipla e só o medo que tinha do que podia acontecer a Ángel Hernández, o amor que a acompanhou no crescendo da dor, a travou. Até ao dia em que ela decidiu, como ele lhe pedia para ser ela a fazer. "Ele não tem medo. Eu é que tenho". Dizia ela, há seis meses, numa entrevista dura. Ele não estava preocupado com o futuro dele. Só com a paz dela, que já mal via ou ouvia, que só se movimentava ao colo dele. Esse dia da decisão foi terça-feira. "Hoje é 2 de abril de 2019. Insistes que queres suicidar-te? - Sim". Ofereceu-lhe a paz, definitiva, em forma de pentobarbital de sódio, quarta-feira. E foi preso esta quinta-feira. Porque a morte assistida é crime em Espanha. Libertado sem caução, não escapará ao processo.

Ele tem 69 anos. Ela tinha 61. Viviam em Madrid, num apartamento que já não o era, sequer. Era uma enfermaria, sem portas e com quartos ampliados, para dar espaço ao guindaste com que Ángel deitava María José, quase paralisada, ela que fora, além de funcionária judicial, pintora e pianista nas horas íntimas. Artífice do pormenor e da minúcia. Amante de cinema clássico. Até que se cruzou o destino degenerativo. E o desespero. E as tentativas de suicídio, quando a degeneração não era assim como agora, que ele travou. Uma ingerência que, prometeu-lhe, a pedido dela, não voltar a cometer.

O caso de Sampedro

A história do amor que é preciso para entregar a vida pelo descanso do outro traz à memória o caso do galego Ramón Sampedro, uma luta pela decisão de morrer que chegou ao grande ecrã e aos Oscars. Como na história desse homem-coragem que ficou tetraplégico após um mergulho mal calculado no mar, María José e Ángel registaram a tudo em vídeo. Ele a preparar a medicação, ela a tomá-la. Despediram-se e ele contou o que se passara aos elementos da emergência médica. Que remeteram para as autoridades policiais.

Ángel é a primeira pessoa a ser detida em Espanha por cooperação ao suicídio. E será o primeiro, segundo a associação Direito a Morrer com Dignidade, a ajudar um doente terminal a suicidar-se, desde Ramón Sampedro.

Deverá ver a pena reduzida, porque o Código Penal espanhol prevê uma atenuante quando o doente pede a morte e está em estado terminal. Seis meses a dois anos, ou seja, nunca o suficiente para Ángel ficar preso. Demasiado, entendem alguns juristas, como Martín Pallín, ouvido pelo jornal "El País". Ángel não quer fugir. Tanto não quer que informou os médicos que acorreram à chamada a casa. Ángel só cumpriu "um dever moral, amparado pelo direito à dignidade consagrado na Constituição".

"Em casos concretos, quando (a eutanásia) se faz por amor e a pedido de alguém, não sei se há reprovação penal que justifique a prisão", admite, ao mesmo jornal, o presidente do Comité de Bioética espanhol, Frederico de Montalvo, assumidamente opositor à morte assistida. "Ato de amor" é a palavra de ordem para a já mencionada associação, segundo a qual 80% dos espanhóis prefeririam a eutanásia e o suicídio assistido despenalizado. Trata-se de "ajudar uma pessoa a dispor da sua vida livremente".

O Governo socialista não logrou aprovar essa despenalização antes do seu fim antecipado - as eleições são dia 28 - porque a oposição do Partido Popular e do Ciudadanos (direita) usou de todos os estratagemas de adiamento para que não fosse, sequer, discutida. Quando não tens ajuda, resumia María José ao "El País", há meio ano, "estás fodida". Esta quinta-feira, a sua vida fez-se arma de arremesso política.