China

Hong Kong gritou até lhe pedirem desculpa. É tarde

Hong Kong gritou até lhe pedirem desculpa. É tarde

Manifestantes marcharam pacificamente durante horas exigindo a demissão da chefe do executivo de Hong Kong por causa da proposta de lei que autorizaria extradições para a China.

Eram, estimam os organizadores, dois milhões. Quase 30% da população de Hong Kong. A polícia aponta menos de 400 mil, as imagens ajudam a tirar teimas. Encheram o gigantesco centro da gigantesca cidade que é região administrativa especial da China mas vive do seu próprio sistema, semi-herdado dos tempos de ex-colónia britânica e de que goza até 2047. Um sistema onde expressar-se é livre. Recusaram a suspensão, anunciada no sábado, da discussão de uma proposta de lei de extradição, porque exigem a sua retirada. E repudiaram a arrogância da líder do executivo pró-Pequim, Carrie Lam, que rejeitou pedir desculpa pela repressão dos protestos que marcaram a semana, por ter insistido na discussão da lei e por ter chamado mimados e amotinados aos manifestantes. Ela não pôde fazer de outra forma. Na noite deste domingo, pediu desculpa. Esta segunda-feira, enfrenta uma greve geral. Porque foi tarde.

"A chefe do executivo admitiu que as falhas no trabalho do Governo conduziram a disputas e conflitos substanciais na sociedade e que ela desiludiu e magoou o povo. Pede desculpa por isso ao povo de Hong Kong e promete adotar a mais sincera e humilde atitude de aceitar críticas e melhorar a forma de servir o público."

Foi um pedido escrito, em nome do Governo, que não responde às exigências. Lam não se livra do desejo que se construiu ao longo da semana: os cidadãos querem-na longe das rédeas do território, pedem que retire a lei e que se retire com ela. Este domingo, vestiram-se de negro para gritá-lo com mais força, em paz, a pedido da Frente Civil de Direitos Humanos. Não houve confrontos. Slogans: "Os estudantes não são amotinados", "Não atirem sobre os nossos filhos".

Entregar fugitivos

A proposta, recorde-se, permitiria extraditar fugitivos para países com os quais Hong Kong não tem acordos de extradição e que incluem a China, onde os julgamentos terminam em condenação em 99% dos casos. Para quem não a aceita, trata-se de uma machadada na autonomia do território e numa antecipação de 2047.

Mas o problema de Carrie Lam não se esgota nos ecos que sobem das ruas. À mesa da governação esperam-na sérias dificuldades, multiplicando-se as queixas de quem a apoiou cegamente e não foi avisado da reviravolta: os partidos "pró-sistema" que lhe dão apoio para construir uma maioria parlamentar de 43 assentos em 70 e que vão a eleições para o Conselho Distrital em novembro e para o Conselho Legislativo (parlamento) em setembro de 2020.

Receiam que suceda como em 2003 - ano das maiores manifestações no território desde a sua devolução pelo Reino Unido à China, em 1997 e até este domingo -, quando o recuo de uma legislação restritiva sobre segurança nacional penalizou os pró-sistema na ida às urnas que se seguiu.

E não faltaram avisos, vindos de dentro, dos conselheiros mais próximos de Lam. Ainda que pró-Pequim, perceberam que virar a população contra o Governo era pôr em causa as futuras eleições.