Suspeita

Jornalista incómodo terá sido morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul

Jornalista incómodo terá sido morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul

A história tem contornos de filme de espionagem, mas é real e por isso mais dramática. O jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime saudita, desapareceu no início de outubro, em Istambul. Na Turquia, acredita-se que foi morto a mando do regime saudita. Riade nega.

A última vez que foi visto, a 2 de outubro, Jamal Khashoggi estava a entrar no consulado saudita em Istambul, onde se deslocou para pedir um documento necessário para poder casar com uma cidadã turca. Não mais foi visto ou ouvido. Desapareceu.

A imprensa turca e amigos de Jamal Khashoggi acreditam que o jornalista foi morto e desmembrado, dentro do consulado, por um "esquadrão da morte" que nesse dia foi filmado a aterrar, em dois aviões particulares, no aeroporto de Atartuk.

A Polícia turca investiga a chegada e curta permanência em Istambul, no mesmo dia em que desapareceu o jornalista, dessa equipa de agentes sauditas, identificada como um "esquadrão da morte" ou "de sequestro", em consonância com as teses de que Khashoggi foi assassinado no consulado, como sustenta um jornalista turco amigo, Turan Kislçi, ou de que foi sequestrado, como avança a imprensa árabe.

O jornal "Sabah", próximo do presidente Recep Tayyip Erdogan, revelou as identidades dos "15 misteriosos membros do esquadrão da morte" alegadamente envolvidos no desaparecimento de Khashoggi. Publicou, também, as imagens dos indivíduos, apontados como cidadãos sauditas e que foram filmados pelas câmaras de segurança do aeroporto.

A mesma notícia indica também a hora a que o grupo chegou a Istambul e o momento em que abandona o país através do mesmo aeroporto.

O jornal turco "Hürriyet" noticiou que um dos elementos do grupo era um médico legista do exército saudita e cita, sem mencionar o nome, um alto responsável dos serviços de segurança turcos, que afirma que há 90% de possibilidades de o jornalista ter sido assassinado. Jamal, de 59 anos (faria 60 no sábado), escreveu vários textos em que critica o príncipe Mohammed e o reino saudita.

Imagens mostram Jamal a entrar mas ninguém o viu sair

Imagens divulgadas pelo canal de televisão "News 24" mostram Jamal Khashoggi a dirigir-se para o consulado. É filmado a entrar, mas não há imagens que o mostrem a sair. Pouco depois, uma carrinha Mercedes de cor preta, que estava estacionada à porta, abandona o edifício em direção à residência do cônsul, a cerca de dois quilómetros de distância.

As autoridades turcas, que estão a investigar o caso, dizem que o jornalista nunca saiu do edifício. Riade garante o contrário e Ancara exige, agora, provas de vídeo que mostrem Jamal a sair do edifício.

"Têm os sistemas (de videovigilância) mais sofisticados. Se um pássaro passar perto ou uma mosca sair, vão detetá-los", disse o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sustentando que não pode ficar em silêncio sobre o desaparecimento de Khashoggi.

"Estamos a investigar o caso em todas as suas dimensões. Este incidente aconteceu no nosso país. É impossível ficarmos em silêncio perante um caso assim. Não é um acontecimento normal", acrescentou o Presidente turco, que falava aos jornalistas no voo de regresso de uma viagem oficial à Hungria.

Funcionários do consulado dispensados na tarde em que Jamal desapareceu

Segundo a televisão turca NTV, no dia em Jamal Kashoggi desapareceu, as autoridades consulares deram a tarde livre aos funcionários turcos do consulado, afirmando que ia realizar-se uma reunião.

Os funcionários saíram à hora do almoço, pouco antes de Khashoggi entrar, segundo aquele canal de televisão.

Questionado sobre os dados avançados pela imprensa, Recep Tayyip Erdogan escusou-se a comentar. "Não é justo comentar suposições, mas estamos preocupados", disse Erdogan, citado pelo Hürriyet.

Na terça-feira, as autoridades turcas disseram que iam proceder a buscas no consulado mas a Arábia Saudita refere desconhecer a iniciativa de Ancara.

Noiva de Jamal faz apelo aos EUA e Trump responde

Entretanto, a noiva do jornalista, colaborador do jornal "Washington Post", pediu ao presidente norte-americano, Donald Trump, e à primeira-dama Melania Trump ajuda no sentido de se esclarecer o desaparecimento de Jamal Kashoggi.

No texto publicado no Washington Post, Hatice Cengiz urge também a Arábia Saudita e especialmente o rei Salman e o príncipe Mohammed bin Salman a mostrarem "sensibilidade" em relação ao caso e a "tomar a iniciativa de mostrar as imagens das câmaras de segurança do interior do consulado".

O Presidente norte-americano, Donald Trump, reagiu entretanto e declarou que os Estados Unidos "exigem" respostas da Arábia Saudita e anunciou que tenciona convidar a noiva de Jamal Khashoggi a ir à Casa Branca.

Trump disse à imprensa na Sala Oval que telefonou à noiva, Hatice Cengiz, e que ninguém sabe exatamente o que aconteceu, tendo manifestado esperança de que Khashoggi não esteja morto.

O chefe de Estado norte-americano disse também que falou com os sauditas sobre aquilo a que chamou "uma situação má", mas não revelou pormenores sobre as conversas que manteve.

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