Violência no Brasil

Jovem é atacada e marcada com suástica na barriga por ser contra Bolsonaro

Jovem é atacada e marcada com suástica na barriga por ser contra Bolsonaro

Uma jovem cujo corpo foi marcado com uma suástica a golpes de canivete porque usava uma camisola da campanha "Ele Não", contra o candidato Jair Bolsonaro tornou-se um exemplo da violência causada pela polarização política no Brasil.

Imagens do corpo desta vítima, identificada apenas como uma jovem homossexual de 19 anos que foi surpreendida por apoiantes de Bolsonaro quando voltava para casa na cidade brasileira de Porto Alegre, tornaram-se virais nas redes sociais e somam-se a outros registo de ameaças e agressões.

Instigados pelo clima que divide o Brasil nestas eleições, os atos de violência têm sido maioritariamente promovidos por pessoas que dizem agir em defesa das ideias de Bolsonaro, um ex-capitão do exército, candidato da extrema-direita que lidera as presidenciais e ficou conhecido por manifestar publicamente opiniões machistas, homofóbicas e racistas.

Estão registados casos de ameaças contra mulheres, que relataram medo e indignação contra o aumento da violência causada pela polarização política e a intolerância.

Bianca Martins, enfermeira de 30 anos que vive na cidade brasileira de Belo Horizonte, contou que sofreu ameaças de um simpatizante de Bolsonaro após participar em atos organizados por grupos de mulheres contra o candidato do Partido Social Liberal (PSL) no último dia 29.

"No dia do ato EleNao, aguardava um Uber com uma colega e um motorista acelerou o carro em nossa direção, em seguida ligou uma música a favor de Bolsonaro e o carro dele também estava identificado com adesivos do candidato", contou, apesar de ter ressalvado que não foi agredida fisicamente.

Bianca Martins referiu ainda que está a perceber um aumento de hostilidade de homens contra o ativismo das mulheres brasileiras, principalmente daquelas que defendem causas feministas ou a campanha contra Bolsonaro.

"Já estamos a perceber a mudança de comportamento de alguns homens, o preconceito que era velado, hoje está explícito. E o tom agressivo que estão tomando assusta bastante. Estas pessoas veem-se representadas por ele [Bolsonaro]. O discurso que ele dissemina provoca esse tipo de comportamento", destacou.

Amanda Saraiva, advogada de 37 anos, disse que também sofreu ameaças, no último domingo, dia da primeira volta das presidenciais brasileiras.

"Fui votar num dos maiores colégios de São Gonçalo. Na fila estavam cinco mulheres conversando e dois homens. Comecei a escutar a conversa das mulheres. Duas delas diziam que não iam votar no Bolsonaro. Outras duas iam votar por orientação dos maridos e a que sobrou estava na dúvida", contou.

"Nesse momento não aguentei e intervim (...) As cinco eram negras, trabalhadoras, e uma das que ia votar por orientação do marido, era inclusive vítima de violência doméstica. Após uma conversa de 22 minutos na fila, convenci as três a não votar no Bolsonaro. Um dos homens que estava na fila ficou irritado, tentou intimidar-me", contou, acrescentando que foi insultada e ameaçada de agressão.

A advogada afirmou que o responsável por atender os eleitores nas salas de votação a tirou da fila para votar imediatamente.

"Vim para casa pensando no fanatismo político que se instaurou. Na tristeza de saber que as pessoas estão cegas de ódio e não conseguem mais dialogar. Na irracionalidade de votar num candidato que nada tem a ver com a família e muito menos com os pilares cristãos. A religião não prega o ódio, o preconceito, a tortura e a intolerância. Quem vota em Bolsonaro justifica o injustificável", considerou.

Também Sonia Correa, reformada de 67 anos, foi ameaçada por um desconhecido nas redes sociais por se posicionar politicamente contra o candidato que lidera as presidenciais do país e apresentou queixa na polícia.

Um levantamento publicado na última quinta-feira pela Agência Pública, que promove o jornalismo de investigação independente, compilou pelo menos 70 casos de ameaças e violência física contra mulheres, transexuais e homossexuais por pessoas que se identificaram como apoiantes de Bolsonaro.

Embora em menor número, também há no levantamento seis casos de violência e ameaças praticados contra os apoiantes do candidato Bolsonaro.

Com a avalanche de denúncias de atos de violência promovida por pessoas que se identificam como seus apoiantes, Bolsonaro, que ainda está em recuperação de um atentado que sofreu num comício no início do mês de setembro pulicou uma mensagem na rede social Facebook a condenar os ataques.

"Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar", escreveu.

Bolsonaro lidera as presidenciais do Brasil com 49% das intenções de voto e vai disputar a segunda volta com Fernando Hadadd, do Partido dos Trabalhadores (PT), que tem 36% das intenções de voto, segundo a última sondagem do Instituto Datafolha.

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