Europa

Lagarde. De cara da austeridade a diplomata do euro

Lagarde. De cara da austeridade a diplomata do euro

Foi o rosto das políticas de austeridade durante os anos da crise das dívidas, na defesa das reformas estruturais que dariam à economia portuguesa capacidade para recuperar e tornar-se mais resistente a choques. Agora, Christine Lagarde deixa o Fundo Monetário Internacional (FMI) e regressa à Europa para assumir os destinos da política monetária do Banco Central Europeu (BCE) e volta a ser credora de Portugal, ainda que de forma indireta.

O BCE detém dívida pública portuguesa que comprou aos bancos, uma vez que os estatutos não permitem que seja comprador direto de obrigações dos estados. E a pilha de dinheiro em que o BCE está sentado é gigantesca. De dívida nacional tem mais de 39 mil milhões de euros.

Mas mais do que gerir balanços, Lagarde terá de gerir com pinças as relações e equilíbrio entre os diferentes países. O BCE não é um banco central tradicional: tem de servir diferentes interesses dos vários estados-membros do euro. E é nesse papel de negociadora que vai encontrar-se a partir do dia 1 de novembro.

No discurso perante o Parlamento Europeu, a Sr.ª FMI deixou algumas pistas sobre a intervenção à frente do BCE. E não deve estar muito distante do que o ainda presidente Mario Draghi fez até agora. Lagarde afirmou que a atual política monetária de dinheiro barato é para continuar, mas deixou claro que o BCE não é o único elemento na arena, acrescentando que não é "nenhuma fada" e que os governos com capacidade "devem usar a folga orçamental disponível" para estimular as economias, melhorando as infraestruturas existentes.

Uma coisa Christine Lagarde deixou clara: espera não ter de usar as palavras semelhantes às de Mario Draghi em 2012 quando prometeu que "tudo faria" para salvar a Zona Euro.

"Super Mário" de saída

E foi o que o italiano Draghi fez com uma política monetária não convencional e poderá repetir a dose, mesmo já na reta final do mandato. Hoje, o presidente do BCE deverá anunciar novas medidas para estimular uma economia em risco de adoecer a qualquer instante. Foram esses os sinais que chegaram de Frankfurt nas últimas semanas.

Já na reunião do final de julho, o Conselho de Governadores alterou a indicação sobre o futuro da política monetária ("forward guidance"). O BCE admitia manter os juros nos níveis atuais até meados de 2020, mas agora já admite "níveis mais baixos".

Nada se conhece do pacote de medidas e dentro do Conselho de Governadores - onde tem assento o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa - há intensos debates sobre até onde vai (ou deve ir) a influência e intervenção do BCE, cuja função é manter a estabilidade dos preços, ou seja, da inflação em níveis próximos, mas abaixo de 2%. E isso está longe de acontecer. Em julho, o valor baixou para 1% na zona euro e -0,7% em Portugal.

A medida mais consensual entre analistas é uma redução ainda maior da taxa de depósito dos bancos. Ao reduzir a taxa a que os bancos parqueiam dinheiro no Banco Central, baixa os custos dos empréstimos e induz a mais crédito para investimento.