Espanha

Mãe perdeu custódia das filhas por trabalhar demais e processa o Estado

Mãe perdeu custódia das filhas por trabalhar demais e processa o Estado

Uma reconhecida advogada da Galiza perdeu a custódia das filhas, de 13 e 7 anos, numa decisão judicial que teve por base o facto de a mãe trabalhar muito.

"Como mãe, mulher e cidadã exijo que ninguém mais em Espanha, por trabalhar e amar o seu trabalho, possa perder os seus filhos. Eu nunca negligenciei os meus deveres como mãe". Quem o diz é Elena del Pilar Ramallo Miñán, advogada em Bergondo, Galiza, que perdeu a custódia das duas filhas, de 13 e 7 anos.

A decisão judicial de março do ano passado teve como argumento central que a mãe trabalha demasiado tempo e fora de casa, com muitas viagens e participação em conferências, segundo noticia o ABC. O testemunho da mãe da advogada, avó das crianças, assim o comprovou.

Licenciada em Direito, responsável pela área de responsabilidade social do Banco Santander na Eurorregião Galiza-Portugal, autora de sete livros e de inúmeros artigos e projetos, Elena viu-se no meio de um debate jurídico sobre as dificuldades de as mães conciliarem o seu trabalho com a vida familiar. E levanta duas questões: "deve uma mulher brilhante e divorciada ter de abdicar do seu trabalho para não perder os filhos?", "Acontece o mesmo aos homens?".

Elena, separada há quatro anos do marido, acusa o sistema judicial de se submeter a uma "comparação injusta das mulheres, porque quando alcançam um certo nível são socialmente estigmatizadas".

"Dediquei milhares de horas ao meu trabalho, abdicando do descanso e com muito esforço", para conseguir conciliar, "como milhões de mulheres", esse sacrifício diário de conseguir ser reconhecida e cumprir os deveres de mãe.

Mas uma das juízas que analisou o processo de custódia das crianças decidiu que deviam ficar à guarda do pai. "A juíza fundamentou a sua decisão jurídica na palavra do meu ex-marido, sem outra prova, nem médica nem qualquer outra, para dizer que não tenho capacidade de ser mãe" e, assim, "destruiu o meu coração e a minha vida", frisa Elena.

O ex-marido disse em tribunal que ela não estava bem. A filha mais velha reafirmou o que disse o progenitor. A sentença, à qual o jornal ABC teve acesso, não permite recurso e foi tomada por duas juízas de primeira e segunda instâncias de Betanzos.

Elena condena que tenham sido consideradas as declarações da sua mãe, uma vez que ambas têm conflitos há vários anos. Disse que a filha devia cuidar das meninas e não trabalhar fora de casa porque o trabalho do pai era suficientemente bom para as sustentar. Um argumento que contraria os desejos de realização pessoal e profissional da mulher atualmente, alega Elena. "Na Espanha do século XXI temos de evitar que isto aconteça", defende. "O meu pecado foi o dia em que deixei de ser a mulher do senhor engenheiro (profissão do ex-marido). Há uma parte da sociedade que pede igualdade, mas considera que a mulher tem de cuidar dos filhos a tempo inteiro, senão é uma má mãe", aponta. "Tiraram-me as minhas filhas por trabalhar", conclui.