Venezuela

Maior comunidade portuguesa da América Latina esperançada numa nova Venezuela

Maior comunidade portuguesa da América Latina esperançada numa nova Venezuela

A seguir ao Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de 400 mil, embora os luso-descendentes possam ser 1,3 milhões.

A maioria vive na capital, Caracas, e muitos são empresários. Hotelaria, construção civil e a área da alimentação são os principais setores de atividade em que os emigrantes portugueses apostaram.

Ainda esta semana, o secretário de Estado da Economia, Almeida Henriques, desafiou os empresários portugueses instalados em Caracas a tornarem a Venezuela "um mercado ainda mais importante" para Portugal.

O JN falou com três portugueses radicados na Venezuela desde a década de 1970 sobre o que mudou no país desde que Hugo Chávez chegou ao Poder e o que poderá mudar a partir de amanhã.

Embora reconheçam que El Comandante era um grande estadista, os três são unânimes no desejo de que Henrique Capriles vença as eleições presidenciais deste sábado.

Sílvio Moreira: "É como se deus nos tivesse dado uma segunda oportunidade"

A Venezuela de hoje nada tem a ver com aquela que Alvarinho Sílvio Moreira dos Santos, de 53 anos, conheceu em 1977, quando aterrou naquele país da América Latina vindo de São Romão do Coronado (Trofa).

"Antigamente, havia muita união entre as pessoas. Não havia brancos e pretos, pobres e ricos", conta ao JN. "Com Chávez, tudo isso mudou".

El Comandante conquistou as camadas populares "congelando o preço dos produtos e expropriando as terras" o que criou grandes divisões na sociedade, recorda o atual presidente da Casa do Futebol Clube do Porto em Caracas.

Os dias que correm são de nervosismo e incerteza quanto ao futuro. "Há escassez de produtos nos supermercados. Cada vez que chega um camião, as pessoas tentam comprar o máximo que podem, pois não sabem quando chegará o próximo. A insegurança é grande, embora os venezuelanos sejam um povo pacífico", diz este proprietário de uma empresa de canalização e sistemas contra incêndios.

"Temos esperança de que a vitória de Capriles se concretize. É como se Deus nos tivesse dado uma segunda oportunidade", remata.

José Almeida: "Chávez foi um grande estadista. maduro não tem carisma"

"Vive-se uma calma tensa". É assim que José Manuel Almeida, de 39 anos, nascido em Caracas, mas filho de um casal natural de Aveiro, descreve o ambiente na Venezuela.

A expectativa quanto ao que vai acontecer "é muito grande", embora José Manuel Almeida, proprietário de uma agência de viagens em Caracas, não acredite que possa eclodir uma guerra civil.

Tem esperança de que o candidato da Oposição ganhe, até porque os "indecisos poderão votar Capriles" e "há muitos «chavistas», incluindo militares de média patente, que não simpatizam com o presidente interino".

Considera que Hugo Chávez "foi um grande estadista" e que Nicolás Maduro "não tem carisma" e que, "mais do que nunca, é Cuba que está a dar as ordens".

Lamenta que a Venezuela tenha "uma economia frágil". "Não produz nada, importa tudo", diz. Até a sua área de negócios foi obrigada a adaptar-se aos novos tempos. "O turismo está em queda, sobretudo o que tem origem na Europa e nos EUA. Tivemos de nos virar para os restantes países da América Latina e do Sul", refere.

Manuel Oliveira: El comandante "tinha um grande poder de convencimento"

Radicado na Venezuela desde 1975, Manuel Oliveira, 53 anos, diz nunca ter estado tão preocupado com a insegurança como durante os governos de Hugo Chávez.

"Lamentavelmente, a política dos últimos 14 anos foi populista e manteve as pessoas sem trabalhar", critica este português natural de Grijó, Vila Nova de Gaia.

Manuel Oliveira chegou à Venezuela um ano depois da revolução do 25 de abril de 1974, em Portugal. Em 1992, assiste à primeira tentativa de golpe de estado protagonizada por El Comandante.

"Nessa altura, estava a construir um edifício junto ao aeroporto de onde saíam os aviões de guerra. No início, deu-nos um pouco de medo, mas não nos aconteceu nada", recorda.

Diz que a imagem externa da Venezuela nem sempre corresponde à realidade. "A ideia de que Chávez tirou aos ricos para dar aos pobres é mentira. Os ricos estão cada vez mais ricos", assegura. Apesar de todas as crítica, Manuel Oliveira diz que Chávez "era uma pessoa carismática, tinha um grande poder de convencimento". Mas, lá em casa, todos votam Capriles.