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Morreu Emile Griffith, o boxista norte-americano homossexual

Morreu Emile Griffith, o boxista norte-americano homossexual

Emile Griffith, o boxista norte-americano que matou Bennie Paret durante um combate e que assumiu a sua homossexualidade aos 71 anos, morreu esta terça-feira. Pobreza e demência marcam os seus últimos anos de vida.

O pugilista norte-americano morreu aos 75 anos, numa clínica, em Nova Iorque, onde recebia cuidados a tempo inteiro por estar demente. Ao longo da sua vida, Emile Griffiths marcou presença frequente nos combates de Nova Iorque, entre as décadas de 50 e 70, especialmente em Madison Square Garden, onde foi consagrado com o título de vencedor 23 vezes. Era também uma visita assídua dos clubes de boxe dos arredores de Nova Iorque. Em 1990, o seu nome juntou-se a outros nomes conhecidos do desporto na Boxing Hall of Fame.

Até perder a consciência, Griffiths questionou porque motivo as pessoas o perdoaram pela morte de Bennie Paret, o boxista que matou em pleno combate e em direto para a televisão nacional.

Emile Griffiths tentou ainda perceber porque é que as mesmas pessoas que o perdoaram o recriminaram por amar outro homem.

Embora só se tenha assumido aos 71 anos, a sexualidade de Griffiths sempre foi motivo de especulação no mundo do boxe. Até então dividiu-se entre dois mundos: um, onde mantinha oculta a sua orientação sexual e um segundo, onde praticava o grande desporto masculino das décadas de 50, 60 e 70.

Em 2005, acerca do combate que marcou a sua carreira, Griffiths revelou à revista "Sports Illustrated" que Paret lhe tinha chamado "maricón" - palavra espanhola para "maricas" - durante a luta. "Ninguém me chamava máricon", disse o boxista, que ficou de tal forma enfurecido que encostou Paret a uma esquina, na décima segunda ronda, e desferiu 25 golpes seguidos, 12 deles em apenas 7 segundos. Depois do combate, Bennie Paret entrou em coma e acabou por falecer ao fim de dez dias.

O combate foi fatal para Paret e arrastou a carreira de Emile Griffiths para o declínio. "Nunca fui o mesmo depois daquilo", admitiu no documentário "Ring of Fire: The Emile Griffiths Story", que aprofunda a história de vida do pugilista. Emile Griffiths revelou que lhe cuspiam quando passavam na rua e que se sentia de tal forma perseguido que ponderou afastar-se do mundo do boxe. Acabou por ficar, porque "só sabia lutar.

Depois da morte no ringue ter sido transmitida para uma ampla audiência televisiva, uma nuvem negra cobriu o desporto durante alguns anos. A transmissora televisiva NBC deixou de transmitir em direto combates de boxe e o governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller, constituiu uma comissão para investigar o combate de Griffiths e Paret, assim como o desporto em geral. O árbitro, Ruby Goldstein, não voltou a arbitrar um ringue de boxe.

"Continuo a perguntar-me como tudo isto é estranho. Mato um homem e a maioria entende e perdoa. Sem vergonha, amo um homem e essas mesmas pessoas consideram que é um pecado imperdoável. Embora nunca tenha ido para a prisão, passei na prisão toda a minha vida", disse o boxista Emile Griffith a Ron Ross, o autor do livro "Nine... Ten... and Out! The Two Worlds of Emile Griffith".

Em 1992, Emile foi espancado por um gangue à saída de um bar gay, em Nova Iorque e esteve internado no hospital durante algumas semanas.

Além da demência que marcou os últimos anos da sua vida, o pugilista norte-americano ficou bastante pobre e viveu com a ajuda do Conselho Mundial de Boxe e de Gil Clancy, o seu treinador e manager. Oriundo de Virgins Islands, foi consagrado como o primeiro campeão mundial de boxe dessa região. Nasceu em 1938 e mudou-se para Nova Iorque aos 19 anos. Um ano depois, começou a praticar boxe profissionalmente.

Derrotou nomes importantes do boxe, como Florentino Fernandez e Luiz Rodriguez, numa era em que os ringues de boxe tinham atividade todas as semanas. Ganhou, inclusive, um título, em 1961, depois de um combate contra Paret, para o perder cinco meses mais tarde num "rematch" contra o seu grande rival.

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