Crise

Morte de cinco crianças com cancro intensifica acusações na Venezuela

Morte de cinco crianças com cancro intensifica acusações na Venezuela

Cinco crianças com cancro morreram num hospital da Venezuela em menos de um mês, intensificando as acusações mútuas entre a oposição e o Governo venezuelano.

A oposição reclama mais atenção do Estado à área da saúde e o Governo atribui a situação às sanções norte-americanas e a um "bloqueio económico" que diz está a ser apoiado pelos oposicionistas.

Todas as mortes ocorreram no Hospital JM de Los Rios (pediátrico) e a última vítima tinha 2 anos e morreu esta segunda-feira com um tumor cerebral.

As vítimas anteriores tinham entre 6 e 11 anos e morreram todas este mês.

No Hospital JM de Los Rios, estão atualmente internadas 26 outras crianças e na semana passada quatro meninos venezuelanos com cancro viajaram até Itália para receber tratamento no Hospital Bambino Gesù (em Itália).

A falta de instituições especializadas no interior da Venezuela obriga os pais a viajarem até à capital.

Na segunda-feira, mais de uma dezena de mães de meninos com leucemia protestaram junto do Hospital J.M. de Los Rios, para denunciar que as crianças estão a morrer devido à crise hospitalar e humanitária no país.

"Estamos indignados. São crianças inocentes. É injusto porque não estão a morrer apenas da doença, mas de fome. Não lhes dão nutrientes nem sumos", explicou aos jornalistas Leidy Ramirez, mãe de uma das crianças hospitalizadas.

A 4 de maio, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez acusou o líder opositor Juan Guaidó de ter entregue a empresa Citgo (filial norte-americana de Petróleos da Venezuela SA, PDVSA) para satisfazer interesses capitalistas das elites "monroistas" (da doutrina Monroe) em detrimento dos interesses do país.

"Esse roubo consumou o assassínio de crianças que beneficiavam de nobres programas de saúde. São criminosos de baixa 'monta' que não respeitam nem o direito da vida das crianças", escreveu na sua conta do Twitter.

Segundo Caracas, a ordem executiva assinada em maio de 2018 pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proibindo o financiamento da dívida venezuelana, levou a que a banca fechasse várias contas do Governo venezuelano e se negasse a qualquer negociação.

A 24 de maio, Larry Devoe, secretário do Conselho de Direitos Humanos venezuelano denunciou a "lamentável morte" de uma criança que esperava um transplante de medula óssea, "cujo tratamento foi impedido pela suspensão" de um acordo entre a PDVSA e um hospital italiano, devido "ao bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos ao povo da Venezuela".

Através do Twitter divulgou uma cópia de um comprovativo de uma transferência, suspensa, acompanhada pela mensagem "1.576 milhões de euros da Venezuela estão retidos no Novo Banco de Portugal. Cinco milhões são para pagar o tratamento a 24 pacientes de transplante de medula óssea em Itália".

O próprio presidente Nicolás Maduro tem insistido que o dinheiro retido no Novo Banco se destina à compra de medicamentos e materiais médicos.

Na segunda-feira o presidente do parlamento, o opositor Juan Guaidó, denunciou que há fundos retidos em bancos de Portugal e de Espanha porque o Governo venezuelano os usava para financiar grupos paramilitares e repressão no país.

"Alguns fundos estão protegidos, no caso de Portugal e de Espanha, porque com estes fundos o regime financiava grupos paramilitares, coletivos (motociclistas armados afetos ao regime), que perpetravam a repressão (no país)", disse, durante uma intervenção, por videoconferência, no fórum global Conferências do Estoril.