Eleições na Grécia

"Na segunda-feira vamos acordar num país comunista?"

"Na segunda-feira vamos acordar num país comunista?"

A turbulência política regressou à Grécia. No domingo há eleições e o Syriza, que exige um perdão da dívida e o fim da austeridade, é o favorito. A Europa também vai a jogo.

"Na segunda-feira vamos acordar num país comunista?" A caricatura em forma de pergunta anda, por estes dias, na boca de muitos gregos, assegura o jornalista Nikolau Hidiroglou. A causa próxima para este alegado sobressalto são as eleições do próximo domingo e um conjunto de sondagens que coincidem, todas elas, em atribuir a vitória ao Syriza (acrónimo que significa Coligação de Esquerda Radical) e em apontar o seu líder, Alexis Tsipras, como o mais forte candidato a primeiro-ministro da Grécia.

Um dos mais recentes estudo de opinião, publicado no diário conservador Kathimerini, atribui 34,7% ao Syriza, deixando a quase cinco pontos de distância a Nova Democracia (ND), partido de centro-direita liderado por António Samaras, atual primeiro-ministro. Um resultado que, na peculiar contabilidade eleitoral grega, aproxima o partido esquerdista do sonho de uma maioria absoluta.

Hidiroglou, editor de política do semanário Axia, não acredita, no entanto, nessa possibilidade. A distância entre os dois principais concorrentes "é pequena", a percentagem de indecisos é grande e boa parte deles "são eleitores de direita", argumenta, em conversa com o JN.

"Por outro lado, há muita gente que, quando confrontada com as perguntas das empresas de sondagens, não diz o que pensa". É o caso, acrescenta, dos potenciais eleitores do Aurora Dourada, de extrema direita.

"Terrível para o país"

E esta seria outra originalidade provocada pelas eleições de domingo (a par do acordar num país "comunista"): um partido conotado com o movimento neonazi pode ser chamado a propor um Governo. Bastará um terceiro lugar nas eleições (está a oito décimas desse objetivo) e o sucessivo falhanço nas negociações por parte do Syriza e da ND na formação de um Governo, para se concretizar o pior pesadelo de qualquer democrata grego. "Seria terrível para a imagem internacional do país", atira Hidiroglou.

Se a maioria absoluta parece fora do alcance do Syriza, outra das questões do momento é saber quem estaria disponível a servir de muleta ao partido de Tsipras. Os comunistas do KKE afastam liminarmente essa possibilidade. Os três partidos de centro esquerda parecem "mais próximos" da Nova Democracia do que do Syriza. Os Gregos Independentes (direita nacionalista) partilham com os esquerdistas a militância anti austeridade e a permanência no euro, mas estão no pólo oposto em tudo o resto.

"Grexit" outra vez

Ainda para segunda-feira, sobrará uma outra pergunta, em caso de vitória do Syriza: ficará a Grécia mais próximo de sair da zona euro? Tsipras avisou que um Governo seu significará o fim das medidas de austeridade. E atirou para cima da mesa a negociação de um perdão de pelo menos metade da dívida pública grega, que neste momento representa cerca de 175% do Produto Interno Bruto do país (ou seja, 320 mil milhões de euros).

O suficiente para a Alemanha acenar, como nas eleições de 2012, com o "Grexit" (expulsão do euro e regresso ao dracma). "Se os gregos não estão preparados para continuar a poupar e a promover reformas, devem abandonar o euro. Partilho plenamente da opinião da chanceler (Angela Merkel)", verbalizou o deputado democrata cristão Michael Fuchs.