Entrevista

Nabil Abuznaid: "Podem engolir a Palestina. Mas não conseguirão digeri-la"

Nabil Abuznaid: "Podem engolir a Palestina. Mas não conseguirão digeri-la"

A memória é da década de 1960 e da loja onde Nabil Abuznaid ia com a mãe comprar o uniforme da escola, no coração de Hebron. Hoje, representa em Portugal o país que, aos olhos legais do mundo, não existe.

Hoje, não pode levar os filhos àquela rua central e mostrar-lhes a dita memória. Não está autorizado a entrar ali, ainda que ali seja território palestiniano internacionalmente reconhecido. Território, não estado. Ali é um colonato israelita. Esperança na ONU? Se não dependesse dos dólares de Trump...

A abertura da Embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém foi confirmada para maio. Pode arruinar o diálogo israelo-palestiniano?

Se na altura sobrar algum diálogo por arruinar... Na minha perspetiva já está arruinado. Isso será apenas colocar sal na ferida. Naquele dia, os palestinianos vão assistir a um segundo "naqba" ("catástrofe", como foi designado o êxodo palestiniano de 1947-48) na cidade que acreditamos dever ser a capital da Palestina, pela qual lutámos todos estes anos. Será um dia triste, um dia negro para a humanidade, para os políticos, para o campo da paz, até para os EUA, um país construído com base no direito à autodeterminação e que está agora a legalizar a ocupação. Jerusalém-Leste foi ocupada em 1967 e continua a ser considerada pela comunidade internacional como um território ocupado. E agora (o presidente norte-americano) Donald Trump vem premiar o ocupante e legalizar a ocupação dizendo: usufruam, é vosso. Será um dia triste para todos os que se preocupam com a paz, para o direito internacional e para todas as pessoas, exceto umas dúzias como (o primeiro-ministro israelita Benjamin) Netanyahu e companhia, que estão a organizar celebrações.

A decisão de Trump levou a Autoridade Palestiniana a rejeitar os EUA como mediadores exclusivos no conflito israelo-palestiniano. Quem será o interlocutor certo?

Não estamos a falar de quem, mas dos princípios por que se rege. Se quer ser justa, não nos interessa de onde vem. Não se trata de substituir os EUA, mas de encontrar o mediador justo que consiga realmente trazer a paz. Como é que um mediador pode trazer paz se diz: Jerusalém está fora da discussão e dou-a a um dos lados. Quem lhe deu autoridade para isso? Que direito é que um magnata imobiliário que vende torres e terras em Nova Iorque tem de dar a minha terra - Jerusalém-Leste é quase toda palestiniana e de herança cultural palestiniana. Procuramos um mediador honesto, mas que também tenha real influência. Olhamos para a Europa, para países como a França, para todo o mundo. Porque este é um conflito que afeta todo o mundo. Se olhar para a votação (da resolução rejeitando a transferência da Embaixada norte-americana para Jerusalém) nas Nações Unidas (ONU), os EUA tentaram usar dinheiro para influenciar o voto. Não só assumiram uma posição como querem arrastar o mundo atrás deles. Quem é afetado? Países pobres, que mais sofrem. Como a Guatemala, um país pobre que decidiu que sim, ia atrás dos EUA.

Olhando para a Síria, a ONU parece revelar falta de poder para intervier. Terá valido a pena o líder da Autoridade palestiniana ir a Nova Iorque pedir intermediação?

Por que não ir onde ainda podemos ir? Temos que subir ao pódio onde a comunidade internacional se junta. Tentámos em 1974, quando Yasser Arafat foi à ONU e disse: "Temos a arma e o ramo da oliveira; não deixem o ramo da oliveira cair-me da mão, trabalhemos para a paz". A comunidade internacional não fez muito: desde 1974, o que aconteceu entre os israelitas e os palestinianos foi derramamento de sangue. Agora voltámos lá e dizemos: "Por favor, levemos em diante este processo de paz". Estamos a tentar. Que mais podemos fazer? E vejam a guerra que os EUA fazem contra nós por irmos às organizações internacionais, que é onde se vai quando há conflitos. Quando fomos ao Tribunal Penal Internacional fomos punidos, quando fomos à Unesco, a Unesco foi punida. Não podemos ir a nenhuma organização internacional porque há ameaças financeiras de Washington. Esperamos que (o secretário-geral da ONU) António Guterres, que sabe quem são os palestinianos, possa fazer algo. Mas também há pressão sobre ele e sobre a ONU, com ameaças de cortes de financiamento. Não percebemos por que é que, quando se trata da Palestina, os EUA pensam diferentemente.

Com o mundo todo junto no caos da Síria, Israel a meter-se com o Irão, Netanyahu a ponderar antecipar eleições para legitimar-se perante acusações de corrupção, etc., não teme que a causa palestiniana se esteja a perder na espuma dos dias?

A causa palestiniana será sempre importante. Em qualquer lugar que vá, qualquer cidade, país, vejo iniciativas de apoio à Palestina, 70 a 80% das pessoas do mundo estão do lado da Palestina. Tem a ver com justiça, como aconteceu com o "apartheid", na África do Sul. A causa não pode ser varrida para debaixo do tapete. Quando Israel ocupou 78% da Palestina e 28% (Cisjordânia e Gaza) passaram a estar sob responsabilidade da Jordânia e do Egito, os líderes israelitas disseram: "Fantástico, a Palestina já não existe no mapa!" Pensam que podem engolir a Palestina. Mas nunca conseguirão digeri-la.

A verdade é que, atravessando a Cisjordânia, é cada vez mais difícil perceber a Palestina como um território. Há checkpoints, as estradas estão vedadas aos palestinianos...

A ocupação não é fácil. Não só controla a terra como destrói a cultura. Ao impedir-me de ir a Hebron estão a roubar-me a minha infância. Mas não conseguirão roubar-me a esperança e a determinação. Vou continuar a resistir. E consigo vislumbrar a vitória dos palestinianos. Temos um poeta, Mahmoud Darwish, que diz que os palestinianos têm duas opções: a vitória ou a vitória.

Quantas gerações serão precisas para assistir a essa vitória?

Espero que não muito mais. Deixo uma mensagem à comunidade internacional: não deve deixar-nos sozinhos, deve lutar connosco. Como dizia Desmond Tutu, ver opressão e achar que não é nada connosco é alinhar com o opressor. É responsabilidade da comunidade internacional ajudar a que as nossas crianças sejam livres. Porque é que têm que viver toda a vida sob ameaça das armas, porque é que as nossas mães têm que chorar os filhos presos - temos mais de sete mil pessoas detidas em Israel. Por que crime? Querer viver com qualidade no sítio onde nasceram. Não nascemos escravos. Nascemos para ser livres como o resto do mundo, mas temos que lutar para isso. Estamos impedidos de viajar de uma cidade para a outra, impedidos até de enterrar os mortos. Em 70 anos, não testemunhámos um único dia de justiça. Precisamos que o mundo se erga por nós.

É possível imaginar avanços com Netanyahu?

Netanyahu joga bem o jogo. E encontrou um parceiro que encoraja o seu comportamento. Desde a decisão de Trump quanto à embaixada, está a tentar implementar a lei israelita em Jerusalém-Leste e expulsar os palestinianos de lá. Por isso é que está na altura de a comunidade internacional reconhecer o Estado da Palestina e dizer a Netanyahu: "Esta terra é reconhecida internacionalmente, está ocupada e é território palestiniano, por isso, fique longe dela". A timidez internacional só o encoraja a continuar com a política de colonatos. Por que haveria de parar? Pergunto à comunidade Internacional se ainda não percebeu que criticar Netanyahu não o remédio certo? É altura de o mundo assumir que quer salvar a solução de dois estados e dizer basta a Netanyahu.

Acha que Ahed Tamimi, a jovem de 16 anos detida depois de filmada a pontapear soldados israelitas, pode transformar-se no novo símbolo da resistência palestiniana?

Pode, mas temos tantos símbolos desses...

Ela teve "sorte"...

Por estar viva.

Isso, mas também pela projeção internacional que a imagem dela ganhou.

E que bem lhe traz essa imagem na prisão? Pode ser um símbolo, como qualquer mãe palestina também pode sê-lo... Acredite, poderia escrever um livro sobre cada uma das famílias palestinianas. Tamimi apareceu na televisão e ficou conhecida, mas há tantos jovens palestinianos de quem ninguém ouviu falar: foram mortos na obscuridade, enterrados em segredo. Isto tem que parar. Por que é que temos que sair de casa de manhã com a ansiedade de não saber se estaremos de volta ao fim do dia, viver preocupados com a probabilidade de chegar atrasados à escola por causa dos controlos de segurança, ou não poder colher as nossas azeitonas. Por que é que não temos o direito de ter uma terra a que possamos chamar "nossa"? Que mal fizemos? O que aconteceu com os judeus no Holocausto foi um crime contra a humanidade, mas por que é que os palestinianos têm de pagar por isso? Não queremos apagar Israel do mapa. Queremos viver como vizinhos, com boa relação de vizinhança.

Veio da Holanda para Portugal. Antes esteve em Washington. A forma como se olha a causa palestiniana difere de país para país?

Muito. A Holanda é considerada a segunda nação pró-Israel na Europa, depois da República Checa. Foi uma missão difícil, mas interessante pelo esforço de tentar mudar atitudes e opiniões. Aqui, as pessoas são muito simpáticas, mas sinto que são pouco políticas.

Não se interessam?

Calculo que tenham os seus próprios problemas. E sinto que a juventude está menos envolvida na política internacional - nunca fui contactado por universidades, nem procurado para informações, palestras, nada. Em Washington e na Holanda eram os estudantes que faziam a diferença. Influenciam muito a política. A questão palestiniana deveria ser importante para qualquer estudante interessado em direito internacional, paz e democracia.

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