Negociações

O Brexit e os portugueses no Reino Unido

O Brexit e os portugueses no Reino Unido

Três portugueses contam, na primeira pessoa, de que forma o Brexit está a afetar as suas vidas.

1. Qual é a sua profissão e a sua situação no Reino Unido? Sentiu-se afetado pela perspetiva da saída da União Europeia?

2. Como está a adaptar-se a comunidade portuguesa à futura realidade? Multiplicando os registos na Segurança Social, regressando a Portugal, vivendo na expectativa ou na tranquilidade?

3. Acredita que a solução acordada com a UE no que respeita aos direitos dos cidadãos é a melhor?

Pedro Nogueira, técnico de equipamento

1. Sou responsável técnico de equipamentos médicos a nível do Reino Unido e dou apoio na República da Irlanda e a minha situação é estável e confiante para o futuro.

Infelizmente, há mais gente a desinformar do que a informar sobre o Brexit e, como nada está definido, tudo o que se possa dizer neste momento é mentira ou especulação. A única coisa que afeta neste momento quem vive no Reino Unido é que perdemos poder económico porque o valor da libra baixou.

2. Vivendo na tranquilidade, na realidade, nada mudou, nem vai mudar tão cedo. As pessoas que acreditam em tudo o que se vê / lê / ouve estão na expectativa baseadas nas mentiras que lhes chegam fundamentalmente por mau jornalismo internacional. Os mais bem informadas sabem que nada está definido e que tudo é uma possibilidade. Tenho pena dos portugueses que vi nas páginas do Facebook que, precipitadamente, desistem de uma vida com alguma qualidade para a incerteza de voltar a Portugal, onde uma pessoa com mais de 35 é considerada velha e pouco capaz de fazer muitos trabalhos.

3. O que está definido neste momento não é definitivo. As negociações indicam que, nos anos após o Brexit, os cidadãos europeus vão continuar a ser regidos e julgados segundo as regras europeias e pelo Tribunal Europeu. Por isso, nada há a temer. O melhor seria ficar na União Europeia, o que ainda não está fora de hipótese, mas cada vez mais complicado.

Isabel Mourato, organizadora de eventos

1. Sou organizadora de eventos freelancer - empresária por conta própria. Até ao momento, nada está definido e, embora a perspetiva de saída não seja ideal, não vejo em que possa alterar a minha situação.

2. As pessoas da comunidade portuguesa com que lido estão, tal como eu, a encarar a situação com tranquilidade, dado que ainda estamos e estaremos em negociações. Não conheço pessoalmente casos de regresso a Portugal por causa do Brexit e acredito que os de que ouvi falar foram motivados por desinformação e medo.

3. Acho que é a solução possível e bastante melhor do que o proposto inicialmente pelo Reino Unido. O compromisso protege quem já cá estava antes de março deste ano e está aberto a abranger quem chegou depois. Infelizmente, há muito quem especule sobre a situação sem dados concretos e fomente o medo. O Brexit está longe de ser ideal e tem um impacto socioeconómico negativo, mas não é o fim do Mundo.

Ismael Barroso, enfermeiro

1. Como enfermeiro especialista em cabeça e pescoço (head and neck oncology) no Royal Marsden Hospital, não sinto que vou ser afetado nem tão-pouco os meus colegas enfermeiros, visto que, ao contrário de Portugal, aqui, os enfermeiros são muito valorizados e há muita falta de pessoal especializado na nossa área, o que faz com que o nosso posto de trabalho esteja seguro.

2. Conheço principalmente colegas na área da saúde e, como disse, estamos bem seguros, visto que o Reino Unido não pode abdicar do nosso trabalho. Caso contrário, o sistema de saúde inglês, que depende maioritariamente de mão de obra estrangeira, colapsaria. As outras pessoas que ouço a comentar a situação estão à espera de ver o que vai realmente acontecer e que decisões vão ser tomadas nas reuniões entre o Reino Unido e a União Europeia.

3. Desconheço por agora as últimas decisões tomadas, mas acredito que, tendo em conta que existem, por exemplo, mais ingleses a viver em Espanha do que espanhóis a viver no Reino Unido, isso força o Governo inglês a ser mais cuidadoso com as decisões que vai tomar, tendo em conta que o Reino Unido depende em quase todos os setores, como a saúde, de mão de obra estrangeira. Daí estar tranquilo, mas aguardo, claro, com alguma ansiedade o fechar das negociações para ver o que realmente vai ser decidido.