JN em Moçambique

O milagre da água fétida que se faz água cristalina

O milagre da água fétida que se faz água cristalina

Dinamarqueses produzem sete mil litros de água pura por dia, em Moçambique, com novas máquinas de purificação sem químicos.

A DEMA, Agência Dinamarquesa de Gestão de Emergências, colocou no dia 1 em ação na Beira, a cidade-mártir do ciclone de Moçambique de 14 de março, 13 operacionais e seis máquinas de purificação de água que estão a fazer magia. É literal, a missão produz atos extraordinários e sobrenaturais. Como? Transformando água verde, hedionda e fétida em líquido natural H2O, transparente, incolor, inodoro e, como deve ser toda a água, sem qualquer sabor.

A água é "O" elemento indispensável para a sobrevivência da maior parte dos seres vivos, animais ou florais e aqui na Beira, com o surto de cólera e outras doenças hídricas fatais, ter água limpa é a diferença entre viver e morrer.

Bo Kruger, o chefe da missão, que veste como os outros calções caqui, grandes botas e t-shirt justa, fala daquilo como se fosse a coisa mais normal: "Usamos zero químicos, tudo é natural. Aquilo que fazem as nossas máquinas Bene Box 1200, que operam no sistema PureH2O, é extrair da água todos os componentes que estão a mais, livrando-se dos sulfitos, que cheiram a ovos podres, dos e-colis, as bactérias bacilares negativas cuja transmissão fecal-oral é a principal via das cepas patogénicas das doenças".

Magia? Não, tecnologia

Magia? "Nem tanto", diz Bo, "só boa tecnologia e conhecimento científico". Ele mostra para provar: a água putrefacta sai do poço para um tanque, faz o seu sinuoso percurso pelos tubos e tubinhos interiores e sai cristalina para dois tanques de dez mil litros onde é armazenada para distribuição à população. Provamos: é limpa, adoçada, esplendorosa. "Fazemos 1400 litros/hora; damos sete mil litros todos os dias às centenas que aqui acorrem ao Hospital de Macurungo".

É domingo de manhã, 28 graus, sol a ferroar, e o alto e sereno dinamarquês está rodeado de crianças e mulheres que afluem ali com todo o tipo de vasilhames, garrafas, garrafinhas, baldes, bidões, garrafões, que depois carregam para casa com a preciosa. Muitos vêm de longe, Chipangara, Matacuane, Macúti Miqueijo, aldeias que distam uma hora a pé.

Já veio e já vai outra vez regressar, o mínimo Júnior, 9 anos, t-shirt a dizer "tough guy". Carrega um garrafão de 15 litros, vai arriado e torto - mas feliz. "É muito boa, doce até, é!", diz muito convicto Arnaldo Retrato, 13 anos, descalço como os outros, roupa rota como todos, a sorrir brandura.

"Água é o nosso principal problema, depois é comida, depois casa, depois falta de futuro - não temos nada de tudo, tudo voou no tufão", conclui Eurico Carlito, 17 anos, a içar devagar dois garrafões. "Ficam aqui sempre esses senhores?", pergunta.

Não, os dinamarqueses da magia voltam a casa dia 14. E Eurico baixa a cara, escurece-se, e segue o caminho carregadinho para daí a uma hora ter de voltar.