São Salvador

O mistério do pescador que viveu 13 meses no Pacífico

O mistério do pescador que viveu 13 meses no Pacífico

A longa viagem de 12500 quilómetros que o pescador salvadorenho José Salvador Alvarenga protagonizou, perdido no Pacífico, continua envolta em mistério, sendo a sua veracidade questionada por muitos.

José Alvarenga - conhecido por "La Cancha" (o Gordo) - foi resgatado pelos habitantes do atol de Ebon, nas ilhas Marshall, no oceano Pacífico, no passado dia 30 de janeiro. Foi encontrado com o cabelo e barba muito compridos e usando apenas um pano na cintura.

As autoridades enviaram um navio para Ebon para que fosse transportado até à capital, Majuro, de forma a receber tratamento hospitalar.

Às autoridades, disse que havia saído na sua embarcação para a pesca de tubarão, acompanhado de um adolescente, chamado Ezequiel, desde Puerto Paredón, no México, no dia 21 de dezembro de 2012. Na pequena embarcação de fibra de vidro, com 7,3 metros de comprimento, levava comida para apenas um dia.

Segundo relatou, foram surpreendidos por uma tempestade com ventos muito fortes, tendo a embarcação sido arrastada para oeste e ficado à deriva em alto mar durante 13 meses.

Alvarenga afirmou que, durante esses meses no mar, alimentou-se com carnes de aves e tartarugas e bebeu o sangue destas e até a sua própria urina. O rapaz que o acompanhava morreu quatro meses depois de terem partido, segundo alegou porque vomitava e era incapaz de comer animais crus.

A história foi recebida com alguma incredulidade por várias pessoas. Gee Bing, secretário interino das Relações Exteriores das Ilhas Marshall, não escondeu o seu ceticismo. "Soa como uma história incrível e não tenho a certeza se acredito nela. Ele não estava realmente magro em comparação com outros sobreviventes", afirmou.

De igual forma, os médicos que o trataram mostraram-se surpreendidos com o seu aspeto, que consideraram bom para quem esteve 13 meses no mar.

Contudo, Erik van Sebille, oceanógrafo da Universidade de New South Wales, em Sidney, afirmou em entrevista ao jornal "Independent" que havia uma boa hipótese de um barco à deriva na costa oeste do México acabar sendo levado pelas correntes para as Ilhas Marshall.

Uma viagem deste tipo - segundo explicou - normalmente demoraria de 18 meses a dois anos, dependendo dos ventos e correntes.

Erik van Sebille confirmou que existe uma corrente muito forte que vai do México em direção à Indonésia, passando pelas Ilhas Marshall.

Autoridades confirmam histórias

As autoridades confirmam história Esta quinta-feira, as autoridades mexicanas vieram confirmar a veracidade da história de Alvarenga. "Sabemos que a companhia pesqueira para a qual José Alvarenga trabalhava apresentou um relatório dando conta do seu desaparecimento às autoridades mexicanas em novembro de 2012, o que corrobora a história do náufrago", afirmou o embaixador do México nas Filipinas, Júlio Camarena, a quem coube acompanhar o caso.

Contudo, de acordo com alguns órgãos de comunicação social, o relatório oficial apresenta dois pescadores como desaparecidos no local: Cirilo Vargas e Ezequiel Córdoba. Ambos teriam 38 anos, o que não condiz com a descrição de Alvarenga sobre o companheiro de viagem, que era um adolescente. Por outro lado, o nome de Alvarenga não é mencionado no relatório.

Passado conturbado

Em El Salvador, onde vivem os pais e outros familiares de Alvarenga, também existe alguma incredulidade em relação à história. A uma reportagem do canal televisivo salvadorenho "Univision", habitantes da pequena aldeia de pescadores, denominada Guarita Palmeira, no departamento de Ahuachapán, na fronteira com a Guatemala, onde nasceu o pescador, falaram de um passado obscuro de Alvarenga e revelaram que o pescador teve de fugir por ter sido vítima de "um golpe".

Contudo, os familiares preferiram não falar sobre o assunto, tendo apenas dito que não acreditavam que Alvarenga quisesse voltar a viver naquele local.

À chancelaria de El Salvador, a família do pescador afirmou supor que ele estivesse morto há oito anos. Os pais apenas disseram que o filho havia partido da aldeia há 15 anos para ir para o México atraído pela pesca de tubarões e mostraram-se emocionados ao ver a sua imagem no computador.

Ser pescador é uma vantagem

Para o professor de Fisiologia da Universidade de Portsmouth, co-autor do livro "Essentials of Sea Survival", Mike Tipton, conseguir sobreviver tanto tempo no mar é fisiologicamente viável. Em entrevista ao jornal "The Guardian", o especialista realçou o facto de Alvarenga ser pescador e estar habituado à vida do mar, o que teria sido uma vantagem para a sua sobrevivência.

No seu livro, Tipton revela que para obter líquidos para sobreviver os pescadores podem extrair humidade das espinhas dos peixes e beber sangue de tartarugas, o que parece ter sido feito por Alvarenga.

O investigador realçou que as tartarugas são relativamente fáceis de encontrar e podem salvar a vida de um náufrago.

"Há também uma boa camada de gordura na tartaruga, logo abaixo do casco. Ela é muito útil para preservar as proteínas", sublinhou.

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