Líbia

Obama vê o fim de Kadafi e apesar de elementos que são uma ameaça

Obama vê o fim de Kadafi e apesar de elementos que são uma ameaça

A televisão estatal líbia saiu do ar, depois de ter sido tomada pelas forças opositoras do regime de Muammar Kadafi, anunciou o porta-voz dos rebeldes. Os combates na capital líbia continuam, mas Barack Obama já vê o fim do regime, apesar de salientar que há elementos que são uma ameça. Dos três filhos do ditador, detidos pelos rebeldes, um conseguiu escapar.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, vaticinou, esta segunda-feira, que o regime líbio de Muammar Kadhafi "está a chegar ao fim", mas advertiu que há elementos que continuam a ser uma ameaça.

Obama, que se encontra de férias em Massachusetts, exortou, numa declaração radiodifundida, o líder líbio a anunciar "expressamente que abandona o poder" e prometeu que os Estados Unidos serão um "sócio e um amigo" da Líbia no processo de transição.

"A Líbia que os líbios merecem encontra-se ao seu alcance", afirmou, citado pelas agências internacionais, ressalvando que os combates "ainda não terminaram".

Os rebeldes reclamam o controlo da maior parte da capital líbia, Tripoli. As autoridades norte-americanas asseguram que o paradeiro de Kadafi continua incerto, mas na Líbia.

"Achamos que ele ainda está no país. Não temos informações de que tenha deixado o país", disse aos jornalistas o porta-voz do Pentágono, coronel David Lapan, sem avançar mais detalhes.

Manhã cedo, um diploma avançava aos jornalistas que o ex-líder da Líbia Muammar Kadafi estaria, ainda, na residência em Bab Al-Aziziyah, em Tripoli.

Mohamed Kadafi, um dos filhos do ditador líbio, conseguiu escapar da sua casa, onde estava retido por elementos do movimento rebelde, informou a cadeia de televisão al-Jazeera.

Correspondente no terreno confirmaram que a fuga foi conseguida graças ao apoio de militares que continuam leais ao seu pai Muammar Kadhafi, que por sua vez continua em paradeiro incerto

Forças rebeldes controlam já 90% de Tripoli mas continuam a decorrer combates em vários pontos da cidade. "Os rebeldes tomaram o edifício da televisão, depois de terem morto os soldados que o cercavam. Está agora sob o controlo dos rebeldes", anunciou o porta-voz dos rebeldes, citado pela Reuters.

Um outro oficial rebelde confirmou, também à Reuters, a entrada de tanques de forças leais a Muammar Kadafi na Capital e o posicionamento de militares junto à residência oficial do ex-líder líbio e no porto de Trípoli.

"A situação não é estável. Há tiroteios por todo o lado. As forças de Kadafi estão a usar tanques no porto e na Rua Al Sarine, próxima de Bab al-Aziziyah," explicou o oficial rebelde, pelo telefone, à Reuters.

"Os rebeldes estão posicionados por todo o lado em Trípoli e também perto de Bab al-Aziziyah, mas as forças de Kadafi têm tentado resistir", disse.

"Os 'snipers' são o maior problema para os rebeldes. Há um elevado número de vítimas, incluindo o meu irmão e dois vizinhos", acrescentou o rebelde, que disse chamar-se Abdulrahman.

Segundo a estação de televisão Al-Jazira, os rebeldes líbios ocupam a quase totalidade de Trípoli, apesar de ainda existirem "bolsas de resistência" na capital. Estima-se que "entre 15 a 20%" da cidade continue sob controlo do regime.

Violentos combates estavam a ser travados, esta segunda-feira, em redor da residência do ex-líder líbio em Trípoli, depois de os rebeldes terem assumido no domingo o controlo de vários bairros da capital, observou um jornalista da AFP no local.

Vários combates estavam também a ser travados no sul da capital e cerca das 6:30 horas locais (5.30 horas em Portugal continental) eram ouvidos tiros junto ao hotel Rixos, onde está alojada a imprensa internacional.

Os rebeldes líbios assumiram, durante a noite, o controlo da Praça Verde em Trípoli e anunciaram a detenção de três filhos de Muammar Kadafi. Um deles é Seif al-Islam, acusado de crimes contra a humanidade e que será esta segunda-feira transferido para o Tribunal Penal Internacional, em Haia. A população saiu de imediato às ruas da capital e Benghazi para festejar. Combatentes fiéis ao regime despiram os uniformes e a abandonaram posições.

A detenção de Kadafi chegou a ser avançada pela televisão al-Arabia por um porta-voz do Tribunal Penal Internacional, que não adiantou pormenores nem revelou quem teria a custódia do líder líbio. A agência Reuters também difundiu a informação, mas pouco depois fez uma rectificação, dizendo que a detenção confirmada é de um dos filhos do coronel.

A captura de dois filhos do líder líbio, Seif al-Islam e Saadi, numa zona turística a oeste de Trípoli, foi anunciada por um dos porta-vozes da força rebelde, Aboubakr Traboulsi, na televisão al-Jazeera. Posteriormente, o procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno-Ocampo, confirmou a detenção de Seif al-Islam, que era o "braço direito" do regime e alvo de um mandado de prisão do TPI por crimes contra a humanidade cometidos na Líbia. Será transferido, esta segunda-feira, para Haia, acrescentou. Também o filho mais velho de Kadafi, Mohamed, está sob custódia dos rebeldes depois de se ter rendido. "Estão em lugar seguro", disse um porta-voz dos rebeldes à televisão al-Jazeera, já de madrugada.

O anúncio da detenção dos filhos de Kadafi foi divulgado quando os rebeldes conquistavam Trípoli e a Praça Verde, local onde os partidários de Kadafi costumavam juntar-se para manifestar apoio ao coronel. Há indicação de que a guarda presidencial optou pela rendição. E a Internet foi restabelecida, seis meses depois do início da ofensiva contra o líder líbio.

"Regime está a colapsar"

Sinais de que a queda do regime é inevitável, aos quais se juntam as declarações da NATO. "O regime de Kadafi está claramente a colapsar", defendeu o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, em comunicado. "É tempo agora de criar uma nova Líbia, um Estado assente na liberdade, não sobre o medo, sobre a democracia, não sobre a ditadura, conforme a vontade de todos e não ao sabor do capricho de alguns", considerou.

O secretário-geral da NATO prometeu ainda ajudar os rebeldes na reconstrução de uma Líbia democrática, após cerca de 40 anos de ditadura de Kadafi. Já durante o dia, este era o desfecho previsto. "O que estamos prestes a assistir esta noite é o colapso do regime", disse a porta-voz da Aliança Atlântica, Oana Lungescu.

Kadafi não cede

Os rebeldes garantem que os combates só param assim que Kadafi renuncie ao poder. Mas o coronel líbio, cujo paradeiro é desconhecido, não cede. "Vida ou morte", declarou numa mensagem àudio difundida pela televisão, na qual voltou a pedir à população que salve a capital. "Receio que se não agirmos ele incendeiem Trípoli", disse. "Não haverá água, alimentos, electricidade ou liberdade", acrescentou.

O porta-voz do governo líbio, Moussa Ibrahim, anunciou que pelo menos 1667 pessoas morreram nas últimas 24 horas em Tripoli, com o início da ofensiva dos rebeldes sobre a capital. Defendeu ainda um cessar-fogo e garantiu a existência de milhares de combatentes dispostos a defender o regime.

A televisão líbia continuou a passar imagens gravadas de apoiantes de Kadafi. Mas as imagens em directo de Trípoli não deixam dúvidas: a população saiu à rua para festejar, disparando tiros para o ar e pisando fotografias de Kadafi. "Deus é grande", "Liberdade, liberdade" e "Kadafi caiu" grita a multidão em euforia.

Fim de seis meses de ofensiva

A "conquista" de Trípoli pelos rebeldes aconteceu depois do lançamento de uma acção que estava a ser planeada há meses e que juntou os rebeldes líbios - os que combatem abertamente no terreno e os que actuam em segredo na capital. A oposição juntou os seus esforços aos de diversos imãs islâmicos que, aos altifalantes das mesquitas, incitaram o povo líbio a sair à rua para se revoltar contra o regime.

A denominada "Operação Sereia" arrancou no sábado à noite e teve um dos pontos altos, domingo, com o bombardeamento, por parte dos aviões da NATO, do quartel-general de Kadafi e do aeroporto de Maitika. Os rebeldes conseguiram ultrapassar as defesas montadas pelo regime nos limites exteriores de Trípoli e avançaram em carrinhas e camiões em direcção à capital, iniciando o assalto final ao reduto de Kadafi, seis meses após o início da ofensiva.