Direitos humanos

"Os atuais autocratas surgem de ambientes democráticos", alerta ONG

"Os atuais autocratas surgem de ambientes democráticos", alerta ONG

Na "batalha pela defesa dos direitos humanos", da democracia e do Estado de direito, a "resistência está a ganhar força", apesar do crescente protagonismo dos regimes e dos líderes autoritários, defende a organização Human Rights Watch.

De acordo com o relatório anual da organização não-governamental (ONG), apresentado esta quinta-feira em Berlim, "novas alianças de governos que respeitam os direitos humanos, muitas vezes estimuladas e unidas por grupos cívicos e pelo público, criaram uma resistência cada vez mais eficaz".

Em entrevista à agência Lusa, Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), revela que a oposição aos líderes e regimes autocratas tem surgido muitas vezes de onde menos se espera.

"Poderíamos pensar que a defesa dos direitos humanos viria de países como os Estados Unidos, Reino Unido ou França, mas, na verdade, eles têm estado ausentes. [O presidente dos EUA, Donald] Trump está muito ocupado a acolher autocratas em vez de os combater, o Reino Unido está totalmente absorvido pelo Brexit e o presidente francês, [Emmanuel] Macron, tem falado muito, mas feito muito pouco", admite Roth.

O documento, com o título "Ditadores enfrentam cada vez mais resistência", que analisa as práticas de direitos humanos em mais de 90 países, escreve que a resistência provém de "coligações de estados pequenos e médios e de aliados não tradicionais", mas também de "grupos cívicos ou da população geral".

"Em muitos casos, o público liderou a resistência nas ruas. Grandes multidões em Budapeste protestaram contra as medidas de Orban de fechar a Central European University, um bastião académico de investigação e pensamentos liberais. Dezenas de milhares de polacos ocuparam as ruas várias vezes para defender os tribunais das tentativas do partido no poder de minar a sua independência. Várias pessoas nos Estados Unidos e dezenas de empresas protestaram contra a separação forçada de crianças imigrantes dos seus pais por parte de Trump", exemplifica o documento de 690 páginas.

Ao contrário dos ditadores tradicionais, "os atuais autocratas surgem de ambientes democráticos", sustenta o relatório anual da organização não-governamental.

"Quando pensamos em ditaduras, pensamos em usurpação do poder, pessoas que não têm nenhuma ligação à democracia, só querem governar. O típico autocrata atual ganha o poder através das eleições, principalmente aproveitando-se de algum mal-estar ou descontentamento que é genuíno, culpabilizando uma minoria pelo problema (...) Quando chegam ao poder tentam eliminar tudo o que os possa pôr em risco, isto é, livram-se de juízes neutros, silenciam os media, acabam ou silenciam as ONG", sustenta Kenneth Roth, dando o exemplo do Brasil.

"Estamos todos obviamente muito preocupados com o que (Jair) Bolsonaro representa, a sua retórica assusta (...) vamos ver como vai governar. Acredito que vá existir uma contestação forte", admite.

Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, Jaroslaw Kaczynski, o antigo presidente da Polónia, Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia ou Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, são alguns dos líderes que, segundo o diretor executivo da HRW, atacam ou já atacaram os direitos humanos.

"Todos têm regimes que, de uma forma ou de outra, tentam ativamente minar os direitos humanos. Penso que as pessoas sabem disso. O que não sabem é que tem havido uma resposta consistente", salienta Roth.

"Quem está a ganhar a batalha (...) é impossível dizer nesta altura. Mas há uma batalha a ser travada e acho que esse é o ponto chave."