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Os perfis falsos que enganam os eleitores e ganham eleições

Os perfis falsos que enganam os eleitores e ganham eleições

São o lado mais obscuro e polémico da política que se faz nas redes sociais. No México, os "bots" já ajudaram um candidato a derrotar os adversários. Nos EUA, são usados por Donald Trump e Hillary Clinton na corrida à "Casa Branca".

Publicam e partilham mensagens na rede de forma automática para enganar os eleitores e influenciar a sua opinião. Estes perfis falsos são responsáveis por milhares de dados, que todos os dias circulam nas redes sociais, principalmente no Twitter e no Facebook, sem que os utilizadores saibam.

Ao JN, Chad Edwards, especialista norte-americano em media sociais, da Western Michigan University, sublinha que o principal perigo dos "bots" é quando estes perfis falsos "passam por verdadeiros". "Não é fácil distinguir um 'bot' de um utilizador verdadeiro. Os utilizadores vão sentir grandes dificuldades em distingui-los", explicou.

Também Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil, vai ao encontro desta posição, referindo que "a democracia pode ficar sufocada pelas estratégias de robotização da opinião". Ao partilhar de forma massificada as publicações de um determinado candidato é "criado um efeito de manada", que se alastra nas redes, "impedindo que outros assuntos importantes apareçam".

Quando as eleições foram ganhas na obscuridade

Andrés Sepúlveda é o protagonista de um dos casos mais famosos que ilustra a forma como os computadores podem influenciar as decisões políticas. Numa entrevista à "Businessweek",o hacker admitiu ter adulterado eleições do México, em 2012.

A trabalhar para o Partido Revolucionário Institucional, do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, criou um exército de mais de 30 mil "bots" no Twitter. Estas contas foram usadas para partilhar e comentar automaticamente as publicações relacionadas com o plano de Peña Nieto para acabar com a violência associada ao tráfico de droga. Dando maior visibilidade do que o normal, ajudou "a manipular o debate sobre o tema".

Durante a campanha para as eleições para governador, em Tabasco, Sepúlveda criou contas falsas no Facebook de supostos homossexuais. Estes perfis faziam publicações a apoiar o candidato conservador católico, Gerardo Priego, para o afastar das suas bases, favorecendo Arturo Núñez Jiménez do Partido da Revolução Democrática, que acabaria por vencer as eleições.

"Se o perfil é recente, tem poucos seguidores e escreve com poucas palavras, é provavelmente falso", explica Malini, que adverte: "É importante que as pessoas saibam distinguir quem é falso e verdadeiro".

A influência do Twitter nas presidenciais americanas

Donald Trump é um caso sério nas redes sociais. Bastante presente no Twitter, com dezenas de tweets diários, é acompanhado por uma legião de seguidores, que reage ativamente a tudo o que diz.

Um desses exemplos é apresentado pelo The Atlantic, que dá destaque a uma publicação em que o candidato republicano afirma que vai estar presente num local usado com regularidade durante a campanha. Em poucos minutos, teve duas mil partilhas, apesar da banalidade da mensagem.

Do lado de Hillary Clinton, a realidade não muito diferente. A candidata democrata segue o exemplo de Barack Obama e utiliza as redes regularmente.

Uma investigação da Universidade do Indiana descobriu que a percentagem de "bots" nos seguidores dos dois candidatos à Casa Branca é inferior a 4%. Sem capacidade para influenciar diretamente a decisão dos eleitores é um fenómeno em crescimento.

Chad Edwards admite que a influência ainda é reduzida, mas encara o futuro com alguma cautela. "Acredito que os perfis falsos vão ser mais usados em futuras eleições. Já há muitas partilhas que são feitas por máquinas que passam por pessoas normais", diz o professor.