Ásia

Pelo menos 200 mil pessoas vivem em cubículos em Hong Kong

Pelo menos 200 mil pessoas vivem em cubículos em Hong Kong

Pelo menos 200 mil pessoas vivem em habitações inadequadas em Hong Kong, em frações subdivididas de variadas formas, em cubículos ou gaiolas, muitas com condições precárias que constituem um "insulto à dignidade humana", na descrição da ONU.

Segundo dados oficiais, 199.900 pessoas viviam em 88.800 "frações subdivididas" em Hong Kong, um número que tem vindo a aumentar de ano para ano, como consequência pelos elevados preços praticados no mercado imobiliário na antiga colónia britânica, um dos territórios mais densamente povoados do mundo.

Este número -- que figura do mais recente relatório sobre as condições de habitação nas designadas "unidades subdivididas" elaborado pelo Departamento de Estatísticas e Censos -- reporta a 2015 e está "subestimado", na perspetiva de organizações não-governamentais, como a Society for Community Organization (SoCO).

Mais de metade das unidades subdivididas localiza-se em Kowloon, da qual faz parte Sham Shui Po, o bairro mais pobre de Hong Kong, onde a galeria da SoCO mantém nas paredes uma exposição de fotografia "Trapped" ("Encurralados"), que correu a cidade no ano passado, mostrando as miseráveis condições em que muitos vivem na Região Administrativa Especial Chinesa.

Gordon Chick, assistente social da SoCO, faz uma visita guiada à agência Lusa pelas imagens captadas por Benny Lam, descrevendo as histórias e as categorias em que se encaixam as precárias casas na perspetiva de quem trabalha no terreno.

Viver numa gaiola, em tudo idêntica à de um animal, não é a mesma coisa que viver num cubículo, com um quarto próprio e uma porta como um garante de privacidade, embora em ambos os casos os inquilinos tenham de partilhar a casa de banho, realça.

Apesar de hoje em dia haver menos gaiolas com as tradicionais grades de ferro, empilhadas umas sobre as outras, existem outros compartimentos de moldes semelhantes e igualmente ínfimos e desumanos, envoltos em paredes metálicas ou de madeira, como as chamadas "casas-caixão" onde -- como o nome indica -- cabe pouco mais do que um corpo humano.

Famílias com crianças, por exemplo, habitam frequentemente numa área comum que é sala e quarto ao mesmo tempo, com apenas uma divisória, que pode até ser uma cortina, a separar cozinha e casa de banho, muitas vezes juntas num único espaço.

A área, a partilha de casa de banho ou o número de ocupantes de uma unidade ajudam a 'classificar' o tipo de habitação.

A realidade ultrapassa cenários pré-definidos. Gordon Chick descreve a imagem de um homem que descobriu no patamar das escadas de um edifício: "Ele pagava uma renda de 600 dólares de Hong Kong [68,4 euros] para ocupar aquele espaço. Como é que uma pessoa vive ali e ainda tem de pagar?".

As próprias condições de habitabilidade têm-se agravado. "Há espaços em que o ar condicionado serve toda a fração e, em alguns casos, [os senhorios] definem o tempo, ou seja, a hora a que se liga e desliga", exemplifica.

De fora das estatísticas oficiais ficam os prédios industriais e utilizados à revelia da lei para fins residenciais, escolhidos pelos inquilinos principalmente por "três razões": o tamanho (maior), a renda (normalmente mais acessível) e o elevador, um fator atrativo para idosos, explica Gordon Chick.

Também excluídos das contas são os que ocupam infraestruturas ilegais ou coberturas de edifícios sob barracas improvisadas.

Gordon Chick vê o problema da habitação em Hong Kong por um prisma de "três dimensões", todas em constante crescimento: os preços do mercado imobiliário, as pessoas que vivem em habitação inadequada e o número de candidatos à habitação pública (mais de 280 mil).

"A situação tem piorado", avalia.

Em 2016 e pelo sétimo ano consecutivo, Hong Kong foi a metrópole com a habitação menos acessível do mundo, batendo mais de 400 cidades, de acordo com o mais recente estudo da consultora Demographia.

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