EUA

Perfil de assassino: O órfão em que os colegas apostavam para um massacre

Perfil de assassino: O órfão em que os colegas apostavam para um massacre

A polícia identificou e deteve um jovem de 19 anos, Nikolas Cruz, como suspeito do ataque armado que matou 17 pessoas e feriu 14 numa escola da Florida nos EUA. Colegas, professores e vizinhos fazem um retrato "perturbador" deste jovem assassino.

Nikolas Cruz parece ter nascido do lado errado da vida. Órfão de pais biológicos, foi adotado, juntamente com um irmão, Zachary, pelo casal Cruz, quando estes se mudaram de Long Island, Nova Iorque, para o Condado de Broward, Florida.

A vida, que nasceu torta, de Nikolas voltou a desviar-se em nova curva do destino, no dia 1 de novembro de 2017. A mãe adotiva, Lynda Cruz, morreu de pneumonia. O pai adotivo havia morrido anos antes, de ataque cardíaco, e os dois irmãos, órfãos de pais biológicos, ficaram órfãos de pais adotivos. Duplamente órfãos.

"Estava a recuperar da depressão da morte da mãe"

Nikolas e Zachary ficaram a viver com amigos da família adotiva, conta a revista "Time", após a morte da mãe, e Nikolas parecia ter encontrado um rumo na vida de estilhaços que lhe parecia reservada desde que nasceu: trabalhava numa "loja dos 300" e frequentava aulas num centro de educação para adultos, segundo o advogado da família, James Lewis.

"Parecia estar a recuperar a vida, a ultrapassar a depressão da morte da mãe", disse o advogado, James Lewis, em declarações à agência de notícias norte-americana Associated Press (AP). "Isto foi uma surpresa total."

Os colegas de Cruz na Marjory Stoneman Douglas High School acham que não, que se estava mesmo a ver. "Muitos miúdos contavam piadas sobre ele. Diziam que se um dia alguém pegasse em armas seria ele", disse um estudante, não identificado, ao canal de televisão local WJXT. "No fim de contas, era de prever", acrescentou.

"Não posso dizer que tenha ficado chocado. O passado dele indicava que poderia ser o tipo de pessoa capaz de algo assim", desabafou um antigo colega de turma, Joshua Charo. "Tudo o que ele falava era de armas, caça e facas", acrescentou, em declarações ao jornal "Miami Herald".

Expulso e proibido de entrar na escola de mochila

Terá sido esta apetência por armas, esta obsessão segundo alguns colegas e conhecidos, que levou Cruz a ser expulso da escola, no ano passado. A direção não revela os motivos, mas a mãe de um aluno, citada pelo "New York Times" (NYT) diz que Cruz terá levado facas para escola.

"No ano passado fomos informados de que não estava autorizado a entrar na escola com mochila", contou o ex-professor de Matemática de Cruz. "Houve problemas com ele, por ameaçar outros alunos, e acho que lhe foi pedido para deixar a escola", acrescentou o docente, Jim Gard, dos poucos a ver uma centelha de maldade no jovem autor do monstruoso ataque.

"Era um aluno calmo, que nunca causou problemas na sala de aula", disse o professor Gard. Os colegas ouvidos por vários órgãos de comunicação social discordam. Era uma "solitário" e "perturbado", dizem.

"Ele perseguiu uma amiga minha, ameaçou-a, e tive de cortar com ele", contou uma adolescente, identificada como Dakota Mentcher, em declarações à AP. "Acho que todos pensavam que se alguém fizesse uma coisa destas seria ele", desabafou.

Fora do recinto escolar, Cruz não era um rapaz exemplar, a fiar nas palavras de uma vizinha. "Nikolas tinha problemas de comportamento, creio, mas nunca pensei que pudesse ser violento", disse Helen Pasciolla, ao NYT, recordando que a mãe chamara a polícia algumas vezes para o acalmar.

O presidente da câmara de Broward, Beam Furr, disse à CNN que Cruz chegou a fazer tratamento numa clínica de saúde mental. "Tentamos deitar os olhos a este tipo de miúdos que não se ligam, preocupámo-nos com eles, muitos professores tentaram trazê-lo ao lado bom, mas às vezes não se consegue. Não conseguimos comunicar com ele", lamentou.

Um perfil "muito, muito perturbador"

Aparentemente, e sublinhado pelos colegas, Cruz só se ligava com as armas. Há várias imagens nas redes sociais do suspeito a exibir armas ou fotos com animais mortos.

A pegada digital de Nikolas está a conduzir as autoridades a um perfil "muito, muito perturbador", nas palavras do Xerife Israel, do condado de Broward. O suspeito integrava um grupo supremacista branco, adianta a Associated Press, que cita o líder do movimento nacionalista, responsável por manifestações e exercícios paramilitares na região. A mesma fonte insinuou que o facto de o atirador ter escolhido o dia de São Valentim (14 de fevereiro) para levar a cabo o ataque não foi coincidência, justificando que Cruz teria "problemas com uma rapariga".

Os atos de Cruz também adensam o perfil perturbador que emerge do sangue derramado na Marjory Stoneman Douglas High School. Segundo os relatos públicos, Cruz acionou o alarme de incêndio da escola, levando os alunos a pensar que estavam perante um simulacro.

Os estudantes saíram das salas e formaram filas nos corredores. Segundo a polícia, foi então que Cruz, equipado com uma máscara antigás, granadas de fumo e vários carregadores com munições para uma AR-15 abriu fogo sobre os antigos colegas.

Usou a versão civil, semiautomática, da espingarda de assalto do exército norte-americano, com o mesmo calibre de guerra 5,56mm. Pelo menos 17 pessoas morreram e 14 foram hospitalizadas. Além dos números, começam a ver-se os rostos da tragédia.

Foi o ataque mais sangrento a uma escola desde que um homem armado atacou uma escola primária em Newtown, Connecticut, há mais de cinco anos.

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