Áudio

Pilotos confrontaram a Boeing após queda do primeiro 737 Max 8

Pilotos confrontaram a Boeing após queda do primeiro 737 Max 8

O sindicado dos pilotos da American Airlines exigiu explicações à Boeing após a queda do 737 Max 8 da Lion Air, em outubro de 2018, que causou 189 mortos na Indonésia. Áudio da reunião revela discussão intensa. Cinco meses depois, outro 737 Max 8 caiu na Etiópia e matou 157 pessoas. As caixas negras dos aparelhos revelaram "semelhanças claras" entre os dois acidentes.

O sindicado dos pilotos da American Airlines confrontou a Boeing sobre as alterações feitas ao modelo 737 Max que podem ter estado na origem da queda de dois aparelhos em cinco meses, revela um áudio dessa reunião divulgado pela CBS News.

A reunião, marcada por uma discussão tensa, realizou-se em novembro de 2018, um mês após a queda de um Boeing 737 Max da Lion Air no mar ao largo da Indonésia, que provocou 189 mortos.

Os pilotos exigiram explicações à empresa e manifestaram a sua indignação por não terem tido conhecimento prévio das alterações feitas ao sistema de estabilização em voo. "Nós voamos, merecemos saber o que têm os nossos aviões", diz um piloto, segundo o registo áudio. "Não discordo", responde um representante da Boeing.

"Estes indivíduos nem sabiam que o sistema estava nos aviões - nem ninguém sabia", aponta outro piloto presente na reunião.

O vice-presidente da Boeing, Mike Sinnett, que aparentemente não sabia que a reunião estava a ser gravada, argumentou que o acidente da Lion Air tinha sido um acontecimento que ocorre uma vez na vida. "Em um milhão de milhas, talvez vocês voem em um avião deste modelo, talvez só uma vez verão um acidente destes na vida. Por isso, tentamos não sobrecarregar as equipas com informação desnecessária, para que realmente conheçam a informação que acreditamos ser relevante", justificou Mike Sinnett.

Mas a resposta não satisfez os pilotos. "Somos a última linha de defesa e estamos numa cortina de fumo. Precisamos de ter o conhecimento", afirmou um dos profissionais.

A Boeing indicou então que iria fazer alterações no software, talvez em menos de seis semanas. "Queremos ter a certeza que corrigimos o que precisa ser corrigido. Não queremos apressar as coisas e fazer um mau trabalho", indicou o representante do gigante aeronáutico norte-americano.

Esta intervenção ainda estava em curso quando, quatro meses depois, em março, um Boeing 737 Max da Ethiopian Airlines se despenhou na Etiópia, pouco depois de ter levantado voo de Adis Abeba em direção a Nairobi. Morreram todos os ocupantes - 157 pessoas de 35 países.

Os dois aparelhos registaram subidas e descidas irregulares logo após a descolagem, com as investigações a apontarem para o sistema de estabilização em voo. "Durante a investigação (...) foram notadas semelhanças claras entre o voo 302 da Ethiopian Airlines e o voo 610 da Lion Air", declarou a ministra dos Transportes da Etiópia, Dagmawit Moges, em março.

O presidente da associação de pilotos, capitão Daniel F. Carey, garante que os profissionais vão continuar a exigir respostas. "Os pilotos da American Airlines têm pressionado a Boeing para obterem respostas, porque o devemos aos nossos passageiros e às 346 pessoas que perderam a vida, e de forma a fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para evitar outra tragédia".

"A Boeing não tratou o caso 737 Max 8 com a urgência que o deveria ter feito e por isso recorremos à justiça para exigir anos de registos relacionados com este modelo e estamos a trabalhar com legisladores em Washington para garantir uma supervisão adequada à Boeing, à Administração Federal de Aviação (dos EUA), Airbus, American Airlines e todas as transportadoras aéreas", acrescentou.

Na sequência da queda dos dois aviões, perto de 60 países interditaram o seu espaço aéreo ou suspenderam temporariamente a utilização de aeronaves Boeing 737 Max 8.