França

Portuguesa arrisca prisão por esconder filha na mala do carro durante dois anos

Portuguesa arrisca prisão por esconder filha na mala do carro durante dois anos

Rosa Maria da Cruz rejeitou a gravidez e escondeu-a do mundo. Serena só foi descoberta em 2013, dois anos depois de nascer. Sofre de autismo irreversível.

França Serena corre, salta, anda de bicicleta. Como qualquer criança de sete anos. Só não fala. "Emite sons". Não estabelece comunicação. Porque começou a vida em silêncio, na obscuridade, assim apenas com sons. A mãe, Rosa Maria da Cruz, manteve-a dois anos entre a mala do carro e um quarto obscuro nos fundos da habitação. Começou esta segunda-feira a ser julgada em Tulle, na Corrèze, centro de França.

"Negação da gravidez" foi o argumento desde que, em 2013, mecânicos de uma oficina de Terrasson, na Dordogne, desconfiaram da mulher que lhes trazia um Peugeot 307 com "problemas de alertas" mas não queria abrir a mala de onde vinha um barulho.

"Descobri essa menina no fundo da mala, nua, ao lado de uma alcofa podre, nojenta. Dei um salto para trás tal era o cheiro", recorda à france Info Denis Latour, funcionário da garagem. Diz o colega, Guillaume Iguacel, que a criança, "branca como cal", parecia encandeada, deitada sobre sacos do lixo, rodeada dos próprios excrementos. Havia um biberão imundo com leite fermentado. Olhos revirados, membros desarticulados, cabeça insegura, Serena mal respirava. Os bombeiros calcularam que não sobreviveria mais de meia hora se continuasse fechada. Pesava 7,8 quilogramas e media 71 centímetros.

A mãe, ao lado, parecia calam. Fumava. Latour acredita que levou o carro ali para ser resgatada do mundo de "mentira" em que se enfiara. Rosa escondera a gravidez e dera à luz, sozinha, na sua casa de Brive-la-Gaillarde (Corrèze), na madrugada de 24 de novembro de 2011, ao abrigo do olhar - e do conhecimento - do marido (Domingos Sampaio Alves, pai de Serena) e dos outros três filhos do casal, que dormiam. O primeiro nascera como todas as crianças, o segundo nas férias em Portugal, sem ninguém esperar ou saber que viria, no sofá de casa da irmã. Da terceira, o pai só soube depois do parto, que decorreu nas escadas de casa.

Rosa tratou do nascimento. "Cortei-lhe o cordão, peguei-a ao colo e depois pousei-a e fiz a minha vidinha, levantei os pequenos, preparei-os para a escola. Como se nada fosse", contara, em 2013, ao canal TF1. "Para mim, não era uma criança que acabava de nascer. É isto. Não consegui falar dela". Negação de gravidez, como negara as duas anteriores, que ela própria descobrira tardiamente. Sem procurar acompanhamento.

O que a acusação retém agora é que à negação da gravidez seguiu-se a "negação da criança", o que redundou em maus tratos. Só não houve o infanticídio típico destas negações. Rosa não matou Serena - "fê-la sobreviver", analisa uma psicóloga ao jornal "Sud Ouest". E chamou-a de Serena, porque "era um bebé que não chorava". Ao longo do tempo, contradisse-entrou em contradições. Começou por falar em carinho, em conversas com a menina. Acabou por dizer que só lhe falou aos 18 meses. Admitiu que havia dias em que se esquecia de descer ao quarto obscuro, que quem lá fosse poderia encontrá-la, que não a fechou. Que só a colocou no carro quando Domingos ficou desempregado e começou a passar muito tempo em casa.

Rosa tem hoje 50 anos. Pode passar os próximos 20 encarcerada. Serena está numa família de acolhimento e tem horror a espaços fechados. Tem sintomas de autismo irreversíveis.