Crise

Portugueses temem que problema elétrico na Venezuela se agrave

Portugueses temem que problema elétrico na Venezuela se agrave

Vários comerciantes portugueses na Venezuela manifestaram esta quarta-feira apreensão pelos problemas de abastecimento de energia no país, temendo que os apagões venham a ocorrer com cada vez mais frequência e agravem a "delicada" situação económica do país.

"O que acontece é grave, os apagões ocorrem com cada vez maior frequência e durante mais horas. Quando a energia regressa fica a oscilar e isso é mau para todos os equipamentos. É difícil adivinhar o que vai acontecer, mas tememos que a situação se agrave", disse à Lusa um comerciante.

Segundo Agostinho Marques, comerciante na área de restauração, os apagões que "nas últimas semanas atingiram dimensões históricas" no país não afetam apenas os frigoríficos e as caixas registadoras, mas também o equipamento de ar condicionado, as comunicações e até os terminais de pagamento, obrigando os estabelecimentos a encerrar temporariamente as portas.

"Todos os dias começamos às 5.30 horas a cozinhar as 'empanadas' e a preparar as 'arepas', para meia hora mais tarde abrir as portas. Hoje, quando íamos começar a cozinhar, ficámos sem luz. Tínhamos gás, mas tivemos de fechar as portas porque não havia como cobrar, porque as pessoas não têm 'efetivo' [dinheiro] para pagar", explicou.

Já Marcos Vasconcelos manifestou preocupação com a possibilidade de ter de encerrar definitivamente as portas, porque tem de pagar a empregados, arrendamento e "as coisas estão a estragar-se".

"Desde há anos que se fala de que haveria um apagão geral, mas este mês já vieram dois [7 de março e 25 de março]. O primeiro foi o mais grave, mais de cem horas contínuas sem luz. As perdas são grandes e temos de responder pelos compromissos e pelo pessoal que tem família para manter", notou.

Este comerciante chamou ainda a atenção para a situação dos transportes, um problema que diz ser "também grave", porque "há trabalhadores que não chegam ao trabalho, porque não há autocarros, e têm dificuldades para regressar às suas casas".

Vários comerciantes adiantaram que "muita gente" da comunidade portuguesa tem carro e isso facilita as deslocações, "mas a maioria da população não tem e ir trabalhar ou regressar é difícil, e até mais caro, porque durante os apagões os motoristas aproveitam para cobrar mais".

Na Venezuela, a maioria dos autocarros é propriedade dos motoristas.

Cansada e "muito incomodada", Gladys Gavíria, uma empregada de escritório de uma empresa internacional, referiu que devido ao apagão de segunda-feira, o Metro não funcionava e não passavam autocarros.

"Tive de caminhar desde Los Ruices até La Florida [ambas localidades a leste de Caracas, a uma distância de 7,3 quilómetros] a pé, até casa de uma amiga, onde dormi. Não pude regressar a casa, em Cátia, porque não podia caminhar mais", lamentou.

No passado dia 7 de março uma falha na barragem de El Guri (a principal do país) deixou a Venezuela às escuras durante uma semana.

Um novo apagão começou pelas 11 horas locais (15 horas em Portugal continental) de segunda-feira em várias zonas do sudoeste da Caracas, estendeu-se a outras zonas, sendo que duas horas mais tarde a cidade ficou toda às escuras, constatou a agência Lusa.

Em comunicado, o Governo venezuelano explicou que na segunda-feira o Sistema Elétrico Venezuelano foi alvo de dois ataques terroristas, um deles um incêndio na barragem de El Guri, a principal do país.

Na Venezuela são cada vez mais frequentes e prolongadas as falhas no fornecimento de eletricidade, chegando a afetar a totalidade do território.

O Governo atribui as falhas a atos de sabotagem de opositores apoiados pelo Estados Unidos, enquanto que a oposição acusa o regime de não fazer os investimentos necessários no setor e tem denunciado, desde há vários anos, falhas na manutenção e ausência de peças de reparação.

Desde 2005 que engenheiros elétricos alertam que o país poderia registar um apagão geral devido às condições precárias do sistema.