Terrorismo

O preocupante mundo novo após o 11 de setembro de 2001

O preocupante mundo novo após o 11 de setembro de 2001

Quinze anos após o maior atentado da história, nos Estados Unidos, o extremismo adaptou-se à nova realidade que ajudou a construir em 11 de setembro de 2001.

Para o filósofo francês Jean Baudrillard, os atentados de 11 de setembro de 2001 [em território norte-americano] foram "um ato fundador do novo século, um acontecimento simbólico de imensa importância porque, de certa forma, consagrou o império mundial e a sua banalidade. Os terroristas que destruíram as Torres Gémeas [em Nova Iorque] introduziram uma forma alternativa de violência".

Este domingo, passados 15 anos, é possível afirmar que o modelo de agressão que fez ajoelhar os Estados Unidos - cerca de três mil vidas perdidas a isso obrigaram - foi substituído por um terrorismo caracterizado por uma maior descentralização geográfica dos ataques, pela aposta na força da surpresa e por uma vertente logística que não implica necessariamente investimentos proibitivos.

A transformação no tratamento internacional do terrorismo após o 11/9 teve como principal consequência a possibilidade de aplicação de medidas de força, em termos individuais ou coletivos, em nome da legítima defesa, contra os responsáveis pelos atentados. Como estes não são nomeados, a polémica jurídica e política em torno daquela resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas ainda subsiste. Bem como a prisão de Guantánamo, complexo norte-americano instalado em território cubano, que, após os ataques, passou, por ordem do então presidente, George W. Bush, a reagrupar os prisioneiros da "guerra contra o terrorismo".

Legislação posterior viria a privilegiar o combate ao financiamento do extremismo, a segurança dos transportes - em especial, a aviação civil -, a prevenção do radicalismo e do recrutamento e a proteção informática.

No entanto, as faces do terrorismo adaptam-se e uma outra ordem tende a instalar-se. Para mais, quando parece que a agenda do novo extremismo assenta sobremaneira na vontade de colocar em causa o modo de vida das sociedades democráticas - o simbolismo do ataque de Nice, com um camião por arma, ter ocorrido nas celebrações do Dia de França, a 14 de julho, manchando a efeméride com quase 90 mortes, não pode ser negligenciado -, tendo como combustível apenas e só o fanatismo, em desfavor da racionalidade.

Neste cenário, a capacidade de prever surge como imperativo no trabalho das agências de informação. E é no mesmo quadro que entra um dado inédito. Parte do terrorismo de hoje - sobretudo, em solo europeu - sustenta-se em células diminutas, que poderão, no limite, ser constituídas por um indivíduo inspirado por iniciativas extrínsecas ao seu quotidiano. Neste particular, o "Estado Islâmico" tem surgido como referência basilar. O que acaba por transformar a imprevisibilidade dos ataques no Adamastor das autoridades...

Por outro lado, as alterações comportamentais dos extremistas refletiram a mudança de paradigma espoletada pelo 11 de setembro de 2001. Um ataque contra estruturas governamentais ou embaixadas/consulados passou a ser muito mais difícil, mercê da intensificação da segurança.

Assim, nestes 15 anos, aeroportos, redes de metro e ferroviárias, hotéis, salas de espetáculos e a rua "tout court" ganharam o estatuto de palco preferencial para o terror. Adamastor (parte 2) para governos, polícias e serviços secretos. Com exemplos de pesadelos em Istambul, Turquia; Bruxelas, Bélgica; Londres, Inglaterra; Madrid, Espanha; Paris, França, e Bagdade, Iraque.

Para um terrorismo alicerçado nestas premissas, as vantagens são muitíssimo relevantes. Logo a abrir, consegue um impacto psicológico brutal nas populações, que se sentem inseguras na própria "casa". Depois, força os Executivos a terem de enfrentar as consequências económicas de um país/região "virados do avesso".

Em termos estritamente logísticos, para os radicais, as operações são relativamente baratas e não implicam o envolvimento de um número elevado de elementos. Todavia, a "modéstia" dos meios contrapõe-se à "opulência" dos resultados ao nível do impacto público e de veiculação da propaganda política. Menos é mais, diria o arquiteto Mies van der Rohe.

Curiosamente, após 15 anos, a história não sabe para onde olhar. Isto porque, anteontem, o atual presidente dos Estados Unidos insistiu na "vontade firme" de encerrar Guantánamo. "Não estou disposto a renunciar" ao encerramento da prisão militar, cuja existência tem sido utilizada como uma "ferramenta para ajudar ao recrutamento pelas organizações terroristas", disse Barack Obama, que a tenta desativar desde 2009.

O candidato republicano à sua sucessão, Donald Trump, que a disputará, a 8 de novembro, com Hillary Clinton, do Partido Democrata, tem garantido que, se for eleito, encherá Guantánamo de "tipos sujos".

Pelos vistos, só a forma de atuar dos terroristas mudou mesmo.