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"Quero ser drag queen". Criança está a mudar mentalidade de professores

"Quero ser drag queen". Criança está a mudar mentalidade de professores

"Drag queen". Estas foram as palavras que Keegan, uma criança de nove anos, escreveu no quadro quando a professora do terceiro ano, no Texas, EUA, perguntou aos alunos o que queriam ser quando crescessem. Quando for grande, ele quer ser transformista, criar a sua personagem vestido de mulher. Mas mais do que isso, quer transformar a mentalidade das pessoas. Para que a palavra "ele" não pese na personagem que não é.

Keegan é um menino de nove anos que prefere não ser chamado de "menino". Nem de "menina". Nem "ele", nem "ela". Ele gosta de jogar futebol e videojogos com o irmão Noah, assim como gosta de se vestir de menina. Ela é "Kween-Kee-Kee", a sua personagem de transformista. Era a profissão que queria para o futuro, mas chegou lá mais cedo para descobrir o seu "eu". Com a ajuda de um par de "drag queens" adultos.

Como Keegan ou Kween-Kee-Kee, é geralmente chamado por pronomes masculinos, como "ele", "aquele" ou "dele". Mas ele diz sentir-se "mais como ele próprio" quando é ela. E embora só tenha sido ela por duas vezes em palco, já tem mais de 1500 seguidores na sua página de Instagram, na qual publica fotos vestido de Kween-Kee-Kee.

Keegan encontrou aceitação e apoio na escola, num subúrbio cristão conservador fora de Austin, no Texas. "Esperávamos muito preconceito da escola e um pouco de intolerância, mas ficamos muito surpreendidos", contou a mãe de Keegan, numa reportagem da agência internacional "Reuters".

A professora de Keegan contou que, durante a aula de educação financeira, enquanto outros alunos diziam querer ser médicos e dentistas, ele escreveu no quadro "drag queen". "O que é isso?", perguntou um dos colegas. "Não sei", respondeu Keegan.

"Vejo pequenos indícios de que ele tenta tornar as pessoas conscientes de que isso é algo que ele é, algo que ele faz", explicou a professora. Nem ela nem o diretor da escola receberam qualquer formação sobre como educar alunos não conformes de género e têm trabalhado à base da intuição e observação. A professora quer que seja Keegan a falar do assunto "ao próprio ritmo".

Também os pais queriam "deixar Keegan ser ele mesmo" e não impor normas. Eles revelaram terem ficado surpreendidos quando ele disse que era gay, cinco anos depois de ter começado a usar vestidos. O pai, Chris, 33 anos, disse que no início tinha um misto de sentimentos em relação à expressão de género do filho, mas sem pensar muito sobre o assunto. Nos anos seguintes, a família decidiu que iria estar mais atenta aos preconceitos de género e que não iria impô-los em casa.

O exemplo inclusivo do Minnesota

Escolas públicas de Minneapolis, no estado do Minnesota, oferecem algumas das mais extensas diretrizes para professores, estudantes e pais como parte do seu programa "Out4Good", apoiando crianças LGBTQ e delineando políticas desenvolvidas ao longo de 20 anos em nomes e pronomes, atividades e instalações de género e segurança e intimidação, disse à Reuters Jason Bucklin, o coordenador do projeto.

Cerca de 2,7% dos estudantes do ensino secundário de Minnesota se identificam como transgénero ou não conforme, de acordo com um estudo de 2017 da Universidade de Minnesota.

Um currículo inclusivo de género pode prevenir o tipo de "bullying" que tipicamente começa na escola primária e pode evoluir para homofobia no ensino médio e assédio sexual ou violência no namoro no ensino secundário, explicou Bucklin. "Não tem apenas a ver com os estudantes transexuais. Trata-se de incluir toda a gente na sala de aula e que todos tenham a capacidade de se sentir bem-sucedidos".

Os professores que durante séculos dividiram os alunos em meninos e meninas estão agora a descobrir melhores formas de lidar com alunos não-binários e não-conformes de género, além de crianças transexuais, cuja identidade de género difere da que lhes foi atribuída no nascimento.

"Uma questão de vida ou morte"

Alguns agrupamentos escolares nos Estados Unidos estão a começar a usar uma linguagem mais neutra em termos de género, abordando os alunos pelos pronomes que preferem, que podem ser "eles", "aqueles", "deles" para uma pessoa, ou os inventados "zie", "zir", zirs ", ​​como substitutos. Algumas escolas também permitem que os alunos mudem o nome ou identidade de género que preferem.

O grau de aceitação de tais estudantes pode ser literalmente "uma questão de vida ou morte", dizem os especialistas. Uma pesquisa nacional de 34 mil jovens LGBTQ, de 13 a 24 anos, divulgada na semana passada, revelou que 39% dos inquiridos considerou seriamente o suicídio nos últimos 12 meses. Assim como mais da metade dos jovens transexuais e não-binários, segundo o Trevor Project, um grupo pró-LGBTQ focado na prevenção do suicídio.

Outro estudo, publicado no "Journal of Adolescent Health" em 2018 e baseado num estudo com 129 jovens transexuais e sem género definido, de 15 a 21 anos, constatou que as tentativas de suicídio descem 65% e os sintomas de depressão diminuem 71% se puderem usar os nomes que preferem na escola, em casa, no trabalho e com os amigos. A questão surge muito antes da adolescência, uma vez que a identidade de género geralmente se manifesta em crianças ainda no jardim de infância.

"O que está em jogo é nada menos que a vida futura dessas crianças e a própria saúde da sociedade", disse à Reuters Eliza Byard, diretora executiva do GLSEN, um grupo de defesa nacional para estudantes lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e queer (LGBTQ). "Ainda vivemos num mundo onde os mais marginalizados não estão a receber o apoio e a afirmação de que precisam para alcançar o sucesso académico e prosperar a nível pessoal. E todos nós beneficiaremos quando isso se tornar uma realidade".

Os direitos dos transgénero cresceram nos últimos anos e as pessoas LGBT preparam-se para assinalar o 50.º aniversário desde a revolta de Stonewall, em 28 de junho de 1969. Os protestos de clientes de um bar gay de Nova Iorque, que lutaram contra o assédio policial, são considerados o nascimento do movimento LGBTQ. Keegan, ele e ela, é uma pessoa que beneficiou desse legado.