Timor–Leste

Timorenses recordam vítimas do massacre de Santa Cruz

Timorenses recordam vítimas do massacre de Santa Cruz

Ainda hoje, 20 anos depois, Gregório Saldanha acorda a meio da noite com os sons e as imagens desse dia 12 de Novembro no cemitério de Santa Cruz, em Díli. Vinte anos depois, "ainda dói muito", diz, ao JN, por telefone, enquanto assiste à homenagem aos mortos no massacre.

A 12 de Novembro 1991, então com 29 anos, Gregório Saldanha encabeçou um grupo de manifestantes que se reuniu aos milhares de pessoas que desfilaram em procissão desde a igreja de Motael até ao cemitério de Santa Cruz para depositar flores na campa de Sebastião Gomes, assassinado, a 28 de Outubro, por forças ligadas ao regime de Jacarta.

Uma manifestação "pacífica" com indicação para que os jovens "não respondessem às provocações" das tropas indonésias, recorda, ao JN, por telefone, enquanto assiste, no cemitério de Santa Cruz, a mais uma homenagem às vítimas. Como som de fundo, vozes a rezarem.

"À chegada ao cemitério, as forças especiais da Indonésia começaram a disparar indescriminadamente e a espancar os manifestantes", lembra como se fosse hoje.

Gregório Saldanha foi baleado, detido, interrogado durante dois dias e condenado a prisão perpétua. Só voltou à liberdade em 1999, por altura do referendo sobre a independência do território, na sequência do qual se deu início ao processo de autodeterminação do território.

Juntamente com outros sobreviventes fundou, entretanto, o Comité 12 Novembro, que tem como uma das principais missões encontrar as pessoas desaparecidas na sequência do massacre no cemitério de Santa Cruz.

Das 271 pessoas que se estima tenham morrido nesse dia, foram identificados e entregues à família apenas 16 corpos. "Onde estão os outros é o grande mistério. Estamos à procura de informação porque as famílias têm o direito de saber o que se passou", frisa.

Essa é também a pergunta que David Ximenes, 58 anos, deputado da Fretilin, coloca. "A Indonésia, até hoje, ainda não teve a mínima coragem para dizer onde enterrou as vítimas", crítica, lamentando que, com o passar dos anos, o "calor" das celebrações se esteja a perder.

"As preocupações agora são outras. Antes, dizia-se que o dinheiro era o meio para alcançar o desenvolvimento. Hoje, o desenvolvimento é que é um meio para alcançar o dinheiro".

Em 1991, David Ximenes era vice-presidente do Conselho Nacional de Resistência de Timor-Leste e tinha acabado de cumprir 12 anos de prisão. Por indicação de Xanana Gusmão, não se juntou à manifestação, mas depressa lhe chegaram os relatos de horror pela boca da irmã e do cunhado, que participaram na manifestação.

"Contaram-me que, da forma como tudo aconteceu, foi tudo muito bem planeado", sublinha, sem esconder, contudo, que "o 12 de Novembro marcou um passo muito importante para a nossa autodeterminação".

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