EUA

Trump e o espião da CIA que tinha acesso ao gabinete de Putin no Kremlin

Trump e o espião da CIA que tinha acesso ao gabinete de Putin no Kremlin

Foi em 2017, durante uma operação secreta, que as autoridades norte-americanas conseguiram retirar da Rússia um espião a operar diretamente a partir do Kremlin e com acesso privilegiado a Putin. O agente norte-americano poderá ter sido exposto pelo próprio presidente, Donald Trump.

A decisão para a retirada do espião foi tomada, de acordo com o que revela a CNN, em maio de 2017, pouco depois de Donald Trump se ter reunido na Sala Oval, em Washington, com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, e com o então embaixador russo nos EUA, Sergey Kislyak.

Na reunião, foram discutidos assuntos relacionados com a atividade do Estado Islâmico na Síria. A divulgação da informações pelo presidente fez com as autoridades norte-americanas considerassem a retirada do agente de solo russo, devido ao risco elevado de exposição. De acordo com a CNN, terá sido mesmo o então diretor da CIA, Mike Pompeo, a confessar a altos funcionários da administração Trump de que havia muita informação a circular que poderia colocar em risco a fonte norte-americana em Moscovo.

O informador era um dos agentes mais importantes dos EUA a operar a partir do Kremlin, segundo revelaram fontes próximas do processo. O espião teria mesmo acesso próximo a Putin e era capaz de enviar imagens com os documentos que estavam colocados na secretária do presidente russo.

A relação entre o informador e as autoridades norte-americanas duraria há já dez anos e as primeiras hipóteses para a retirada de solo russo terão sido rejeitadas pelo próprio espião, explica o "The New York Times". Em causa estariam preocupações relacionadas com familiares próximos. Meses depois, o informador acabou por aceitar a extração da Rússia.

Meses de tensão até à retirada

Já no final do mandato de Barack Obama, as autoridades norte-americanas tinham demonstrado preocupações em torno do espião, devido, sobretudo, ao longo período de colaboração entre as duas partes. Os receios cresceram em 2017 depois de as primeiras informações sobre uma possível interferência da Rússia no processo eleitoral dos EUA, em 2016, terem vindo a público. O informador, segundo escreve o "The New York Times", terá mesmo desempenhado um papel central na revelação dos planos russos para uma alegada interferência nas eleições que Trump venceu.

A utilização de material secreto por parte de Donald Trump, e de elementos da sua administração, durante os primeiros meses do mandato terá aumentado as preocupações dos funcionários dos serviços de informações norte-americanos, que decidiram, então, fazer a retirada do informador, cuja identidade e localização continuam por revelar.

Os esforços americanos no Kremlim

Documentos secretos de diplomatas norte-americanos, a que o jornal "The Guardian" teve acesso, demonstram a preocupação em colocar agentes informadores próximos dos círculos de poder do Kremlin.

Na segunda-feira, John Sipher, um antigo elemento da CIA, reagiu à notícia da CNN. "Recrutar uma fonte com acesso privilegiado é extremamente complicado. É algo que pode acontecer apenas uma vez em cada geração, se tanto. É mau quando perdemos uma destas fontes", disse.

Normalmente, as autoridades norte-americanas trabalham com académicos ou jornalistas russos que partilham informação privada sobre o Kremlin, onde trabalham antigos elementos da KGB. Em 2017, a Rússia deteve dois agentes do Serviço Federal de Segurança (SFS), que ocupa o lugar da antiga KGB, suspeitos de terem relações próximas com a CIA. De acordo com os média russos, um dos detidos foi visto pela última vez a sair do edifício do SFS com um saco na cabeça.

O último caso conhecido de um espião a trabalhar para os EUA e que foi retirado da Rússia remonta a 2010. Alexander Poteyev trabalhava para os serviços de inteligência russos e colaborava com a CIA desde 1999, dando informações de agentes russos a operar nos EUA. Terá desempenado um papel importante numa operação do FBI que culminou com a identificação de dez agentes russos infiltrados nos EUA. Em 2018, o portal BuzzFeed entrevistou o antigo espião que está a viver na Florida, contrariando informações russas de que o homem teria sido morto.