Reino Unido

UE estende passadeira vermelha ao "Brexit"

UE estende passadeira vermelha ao "Brexit"

Britânicos votaram pela saída da União Europeia e deixam o mundo abalado. Cameron demite-se e atira negociações para outubro. Europa pede rapidez.

Quando uma das perguntas que mais foi colocada pelos britânicos ao motor de buscas Google nas horas que se seguiram o referendo à permanência do Reino Unido é "o que é a União Europeia?" (UE) fica claro que já nem só o futuro se faz do desconhecido. O passado também. Os eleitores votaram "Brexit". Alguns sem saber o quê, nem porquê. Uma até contou à ITV News que votou a saída e acordou chocada. Afinal queria ficar. Demasiado tarde, responderam-lhe em uníssono dos gabinetes de Bruxelas. Quiseram sair? É já!

O estado de choque desta mulher britânica será porventura o melhor retrato da expressão da imensa maioria dos europeus, quando sexta-feira de manhã acordaram numa Europa encurtada. Do lado de lá da Mancha, Nigel Farrage, líder do independentista UKIP, gritava que nascia "o dia da independência" nas ilhas e David Cameron atirava a toalha ao chão, anunciando a despedida do número 10 de Downing Street. Qual Leonor que vai confiante à fonte com o seu cântaro, ao primeiro-ministro britânico restou apanhar os cacos da ousadia em que se metera: prometeu, em 2013, que se fosse reeleito em 2015 referendaria a presença do Reino Unido na UE, para costurar os rasgões que a pertença ao clube dos 28 provocava no seu Partido Conservador. Tão confiante o fez que negociou com a UE condições que nenhum outro estado-membro tem, para sossegar os eurocéticos. Não terá visto a madrugada chegar como acabou por chegar, como um vendaval traduzido em dois números: 52% dos seus concidadãos partiram-lhe o cântaro, contra os 48% que tentaram ampará-lo.

David Cameron saiu à rua ensolarada depois de uma quinta-feira de chuva, pôs o lugar à disposição e atirou para o congresso partidário de outubro a sua substituição, entregando ao sucessor a tarefa de negociar o acordo das relações futuras com a UE.

Do lado do continente, a unanimidade não tardaria. "Num processo livre e democrático, o povo britânico exprimiu o desejo de sair da União Europeia. Lamentamos esta decisão, mas respeitamo-la", rubricaram os líderes da Comissão, do Conselho e do Parlamento europeus e o detentor da presidência rotativa do Conselho da UE, Jean-Claude Juncker, Donald Tusk, Martin Schulz e Mark Rutte, primeiro-ministro holandês que preide neste momento à UE. A mensagem gira em torno de três conceitos: união, força e determinação. A Europa acordou unida - porventura mais do que estaria ultimamente -, aludiu à geografia, à história e aos interesses comuns, prometeu permanecer forte e pediu um divórcio tão rápido quanto possível. Portanto, Cameron, a batata quente não passa para Outubro...

"Aguardamos agora que o governo do Reino Unido concretize esta decisão do povo britânico o mais rapidamente possível, por mais doloroso que esse processo se possa revelar. Qualquer atraso prolongaria desnecessariamente a incerteza", assinam os líderes.

Até porque o excel da rotatividade da presidência da UE tem um gato escondido. Se, como estatuam as regras, qualquer membro cessante tem dois anos para resolver pendentes e fazer as malas - ou seja, até 2018 para Londres -, a cadeira de Mark Rutte será do primeiro-ministro britânico na segunda metade de 2017... "Estamos prontos para lançar rapidamente as negociações com o Reino Unido relativamente aos termos e às condições da sua saída da UE". Schulz acrescentou mesmo ao "The Guardian" que juristas da UE já estavam mandatados para estudar uma forma de acelerar a ativação do artigo 50º do tratado de Lisboa.

"A União Europeia vai ter um discurso forte, porque existe o risco de efeito de réplica. E tem de ser clara: a opção de sair da UE é legítima, mas tem custos, não é possível ter o melhor dos dois mundos", avisou do seu lado Maria João Rodrigues, vice presidente dos Socialistas no Parlamento Europeu e responsável pelas negociações de um novo roteiro para a Europa. E esse efeito dominó deu logo sinais, na voz de políticos populistas franceses, holandeses e suecos.

"Houve uma grande indução em erro da população britânica", diz a eurodeputada, reforçando a posição de Schulz, para quem é difícil aceitar que "um continente inteiro fique refém de uma luta interna do Partido Conservador" britânico e que a situação fique protelada até outubro porque Downing Street decidiu assim.

Até lá, como se vai dizendo em Londres e a quem lá vive, nada mudará: "Continua a ser um membro da União Europeia com todos os direitos e obrigações que daí decorrem". Burocracias à parte - e porque o referendo assentou em discursos demasiado centrados na questão da imigração -, o novo mayor de Londres (o primeiro muçulmano numa capital ocidental, trabalhista, progressista, pró-europeu e pró-emigração, em suma, uma lufada de mais tolerância na já ultra tolerante Londres, tanto que de lá foi lançada, ontem, uma petição a pedir a independência da capital para continuar legitimamente ligada à UE) foi ao Facebook deixar uma "mensagem clara a todos os europeus residentes em Londres". "Vocês são muito bem vindos aqui. Enquanto cidade, estamos gratos pela enorme contribuição que vocês dão, e isso não vai mudar em resultado deste referendo".

Sadiq Khan conta quase um milhão de cidadãos europeus em Londres, "a trabalhar duro, a pagar impostos, a trabalhar nos serviços públicos e a contribuir para a vida cívica e cultural" da capital do reino. "Foco no que nos une", disse. "Vamos procurar sarar as divisões que emergiram desta campanha". Uma delas arrisca-se a baralhar um pouco mais o tabuleiro: a Escócia deu conta do desejo de secessão e vai bisar um referendo à independência, desta feita com um argumento de peso - a União Europeia.

A outra veio do argumento de que a UE era um sorvedouro de fundos que não são retribuídos. Uma verdade de que os mercados não partilham. Sexta-feira, a libra caiu para mínimos históricos em 30 anos, obrigando o Banco de Inglaterra a vir sossegar as hostes.

"Eu fui absolutamente claro quanto à minha convicção de que a Grã-Bretanha é mais forte, mais segura e melhor dentro da UE. Deixei claro que o referendo era sobre isto, e apenas isto, não o futuro de qualquer político isolado, incluindo eu", disse ontem Cameron, pouco depois das oito da manhã. Ele que, para garantir a liderança dos Tory prometeu um referendo que ninguém pedira...

* COM ALEXANDRA FIGUEIRA