Israel

Raphael Gamzou: "Um judeu não se pode dar ao luxo de ser pessimista"

Raphael Gamzou: "Um judeu não se pode dar ao luxo de ser pessimista"

Afirma que o debate e o confronto de ideias está no ADN israelita. A característica ficou bem patente na conversa com o JN. Raphael Gamzou, embaixador de Israel em Portugal, não se furtou a qualquer dossiê, fosse ele a questão palestiniana ou o Festival Eurovisão.

Continua a considerar que Israel é tratado de forma injusta nos media portugueses?

Não é apenas nos media portugueses; acontece o mesmo noutros países. De qualquer modo, não generalizo, há análises corretas. Mas há uma distorção ou ignorância ou uma combinação das duas entre os media. Dou-lhe um exemplo. Muitas vezes, passa em rodapé, nas televisões, "operação militar de Israel em Gaza". Aos telespectadores não lhes é dito que a operação foi antecipada pelo lançamento de "rockets" de grupos radicais islâmicos que operam na Faixa de Gaza: o Hamas e a Jiade Islâmica. Por vezes, Israel não tem alternativa a não ser responder. Mas, muito frequentemente, a sequência dos eventos não está lá. E, então, claro, fotos e imagens de Gaza são disponibilizadas, porque é isso que o Hamas e a Jiade Islâmica querem que os portugueses vejam: que os civis são atingidos pelo Exército israelita. Não vejo muita investigação sobre porque é que o Hamas e a Jiade Islâmica provocam Israel e cinicamente usam a própria população civil como escudos humanos. Para eles, o mais importante é a imagem do bebé palestiniano morto.

Mas há uma discrepância de poderio militar que é evidente. E, sendo os danos na fação mais fraca muito maiores, são mais salientados...

De maneira nenhuma. Porque não se trata de dois estados em desacordo por uma questão fronteiriça, como a Índia e o Paquistão, por exemplo. Isto é a Faixa de Gaza, um território que, em 2005, foi evacuado pelos israelitas de forma a permitir aos palestinianos geri-lo. Em vez disso, tornou-se uma base terrorista inspirada pelo Irão, para lançar ataques contra civis israelitas. Portanto, não há um nivelamento entre dois estados legítimos. Há um Estado e duas organizações radicais, fanáticas e sádicas em relação ao próprio povo. O Hamas tomou o poder ao expulsar, de forma muito cruel, a Autoridade Palestiniana. Há alguma Força Aérea que, uma hora antes de visar escolas, mesquitas, hospitais, bairros - que é onde o Hamas e a Jiade Islâmica escondem os operacionais e os arsenais -, envie panfletos a alertar para a necessidade de evacuação desses locais?

Era inevitável a situação chegar ao cenário atual?

Na altura, em 2005, Thomas Friedman, do [jornal] "The New York Times", escreveu que Gaza tinha a hipótese de se tornar a Singapura ou a Hong Kong do Médio Oriente. Apontou uma série de razões, entre as quais a densidade, a juventude da população e a vizinhança de um Estado "hi tech", Israel. Foi-nos pedido, por instituições internacionais, que não desmantelássemos o sistema agrícola que os nossos colonos tinham implementado lá. Acedemos. Em poucas semanas, os próprios palestinianos desmantelaram tudo, usaram as peças de metal para fazer armas para atacar Israel. Um Estado judeu ter um Exército forte ainda surpreende muita gente, pessoas que estavam habituadas - que preferiam até - a que os judeus fossem as vítimas, os pobres coitados. É fácil ter empatia com os judeus quando eles são perseguidos. A História mudou. Mudámos o paradigma: tornamo-nos senhores do nosso destino. Isto ainda é uma dificuldade para muita gente. Às vezes, inconscientemente.

Sentiu-se ofendido pelo cartoon de António no "Expresso" e no "The New York Times"?

Não é fácil ofender-me. Sou um judeu orgulhoso e, ao mesmo tempo, um israelita orgulhoso. Mas se me perguntar se o cartoon tem um carácter antissemita, a resposta é, definitivamente, sim. De qualquer forma, estou certo de que António não é, conscientemente, antissemita.

Acredita, realmente, numa solução pacífica para o conflito israelo-palestiniano?

Um judeu não se pode dar ao luxo de ser pessimista. Pessimismo não é uma opção para nós. Mas, como disse Abba Eban, um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, os palestinianos nunca perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade. Mas assisti à ida de Sadat [presidente egípcio] a Jerusalém, cruzei o Canal do Suez por duas vezes - uma como soldado e uma como jovem diplomata -, portanto, se isto aconteceu... Mas não tenho a certeza de que esteja cá para assistir.

É legítimo afirmar que, com a chegada de Donald Trump à presidência dos EUA, a situação global no Médio Oriente piorou?

Não. Não o digo com satisfação, mas, infelizmente, tudo começou a correr mal no Médio Oriente com o presidente Barack Obama [antecessor de Trump]. Estou certo de que as intenções dele eram boas, mas, infelizmente, intenções não são suficientes, especialmente quando se é o líder do mundo livre. Ele teve um erro colossal: quando começaram as manifestações no Egito, ele abandonou o presidente do país, Hosni Mubarak, em minutos. Foi ingénuo ao pensar que, se há manifestações contra Mubarak - que chegou ao poder com alguns truques e cujo Governo não era o mais esclarecido, mas que assegurava uma certa estabilidade no mais importante país árabe e o primeiro a assinar a paz com Israel -, há que o deixar cair e permitir que a Irmandade Muçulmana seja eleita democraticamente. Mas, quando no poder, não há nada de democrático no exercício do poder. Antes de permitir a queda de Mubarak, devia ter pensado no que viria depois. Incendiar igrejas cristãs coptas? Matar homossexuais apenas porque o são? Foi isto que a América livre inspirou?

Perante a ameaça iraniana de abandonar o acordo nuclear de 2015 e de retomar o enriquecimento de urânio, qual é a reação expectável do Governo israelita?

O Executivo tem uma posição muito clara: Israel não pode permitir a existência de um Irão nuclear. A liderança iraniana anseia abertamente destruir Israel, apagá-lo do mapa. Há cerca de 80 anos, o povo judeu foi alvo de um assassinato industrial. Não deixaremos que outra força diabólica - que não é o povo iraniano - o tente. Este regime não é perigoso apenas para Israel. No ano passado, a Mossad [serviços secretos de Israel] obteve os planos nucleares do Irão, cujos dirigentes afirmam que a pretendida capacidade nuclear não tem quaisquer ambições militares. Claro que sabíamos que estavam a mentir. E agora temos os planos, que já partilhámos. A Europa não é ingénua, sabe da intenção iraniana de se tornar uma potência nuclear. Se formos cada vez mais brandos com este regime, através do acordo, fazendo negócios, talvez se ganhe uns anos, na esperança de que haja uma mudança interna. Mas sabemos quais são as intenções dele e não haverá mudança se não houver uma mão pesada sobre o regime. É o que Trump está a fazer e está certo. Os líderes iranianos estão em pânico, sob stresse e a perder ascendente sobre o povo. É a única forma de lidar com eles.

O que pensa dos vários apelos ao boicote do Festival da Eurovisão [que tem lugar em Telavive, Israel, e cuja final é amanhã]?

São originários de um movimento - Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), fundado por um palestiniano - que criou uma rede internacional. Europeus colaboram baseados na ideia errónea de que Israel iguala a África do Sul do tempo do apartheid e que, por isso, deve ser alvo de sanções, isolamento e boicote. É ridículo. Não há apartheid em Israel. Por exemplo, cerca de 20% da população são árabes. Votam para o Parlamento, são eleitos para o Parlamento. Claro que há diversas questões controversas na sociedade israelita, mas considerar Israel um país racista... Costumo dizer que não somos bons no futebol, somos um pouco melhores no basquetebol, mas o desporto em que somos imbatíveis é o debate e o confronto de ideias. Está no ADN israelita. O Bloco de Esquerda acusa Israel de se ter tornado racista e promotor do apartheid. O Bloco de Esquerda não se encontra com o embaixador de Israel, mas fá-lo com outros embaixadores. Que se sentem comigo, discutam comigo e escutem o que tenho para dizer. De qualquer maneira, apesar de Roger Waters [ex-Pink Floyd] se ter tornado uma espécie de agente profissional do BDS, os resultados conseguidos pelo movimento são muito modestos.

Qual julga ser a razão para, nos anos mais recentes, centenas de judeus sefarditas terem pedido a nacionalidade portuguesa?

Há um conjunto de motivações. Uma ligação à herança sefardita e um aspeto mais prático. Nem todos quererão vir para cá, mas, por exemplo, terão interesse em ter negócios em Portugal ou um passaporte europeu. Com o Brexit, os judeus sefarditas britânicos estarão interessados nisso, com certeza.