Saúde

Venezuelanos obrigados a tratarem-se com medicamentos para cães

Venezuelanos obrigados a tratarem-se com medicamentos para cães

A crise económica na Venezuela, que se tem refletido na escassez de bens essenciais, tem obrigado alguns médicos a adotarem medidas extremas, receitando aos pacientes medicamentos de uso veterinário, por falta de remédios para pessoas.

Uma reportagem do jornal espanhol "El Mundo", publicada este sábado, dá conta de alguns casos de cidadãos venezuelanos que se têm visto obrigados a recorrer a clínicas veterinárias para adquirirem medicamentos de que necessitam.

Esta manhã, na localidade de Caricuao, em Caracas, num centro onde já quase não entram animais - é difícil mantê-los em tempo de crise -, quatro pessoas foram tentar a sorte. Todas pediram o mesmo fármaco. Trata-se de Prednisona, prescrito, entre outras valências, para o tratamento de doentes que se submeteram a um transplante de órgão, e que é usado para tratar infeções e alergias em cães e gatos.

Gerber Ribero, 46 anos, era uma das quatro pessoas e é, segundo estimativas da Associação Amigos Trasplantados de Venezuela (ATV), um dos 3500 trasplantados que sobrevivem no país de Nicolas Maduro. Explicou que fez um transplante de rim há 18 anos e que agora se depara com a dificuldade de o manter. "Tomo como medicamento base Prednisona e o seguro social não mo está a dar (...) Tudo o que envolve fazer o transplante, tudo o que custa! É doloroso que as pessoas percam os órgãos por não terem remédios", lamentava, referindo-se às rejeições de 67 órgãos que a Associação contabilizou até este ano. Só em 2017, foram rejeitados 12 órgãos. Segundo Francisco Valencia, fundador da ATV, em menos de quatro meses, morreram três pessoas.

O presidente da Federação Farmacêutica da Venezuela, Freddy Ceballos, assegura que a falta de alguns fármacos de elevado custo, como a Prednisona, já supera os 90%. O responsável, que garante que os stocks desses medicamentos são praticamente nulos, considera que o consumo de remédios para uso veterinário se tornou comum no país, em 2015. No ano seguinte, o jornal venezuelano "El Nacional" dava conta do caso. "Graças a isso, vários órgãos foram salvos", destaca Ceballos.

No entanto, essa alternativa também está a deixar de existir. Nas clínicas veterinárias e de agorpecuária do interior do país, e também em Caracas, já é difícil conseguir Prednisona.

Segundo o "El Mundo", há cerca de 300 mil pacientes venezuelanos com doenças crónicas, cujas vidas estão em xeque devido à escassez de medicamentos. O agravamento da situação tem provocado manifestações no país. Na semana passada, um grupo de pessoas manifestou-se junto ao Ministério da Saúde, na capital venezuelana.

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