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Vítimas de padre pedófilo denunciam pacto de silêncio na Igreja do Chile

Vítimas de padre pedófilo denunciam pacto de silêncio na Igreja do Chile

Três homens vítimas de um padre pedófilo chileno, que foram recebidos longamente pelo Papa Francisco, denunciaram um pacto de silêncio de parte da alta hierarquia da igreja católica do Chile, apesar da verdadeira "epidemia" existente no país.

Um destes homens acusou diretamente um cardeal próximo do Papa.

Francisco, que se declarou determinado a corrigir os "graves erros" de análise do escândalo de pedofilia que envolve a igreja chilena, recebeu na sua residência na Cidade do Vaticano, entre sexta e segunda-feira, Juan Carlos Cruz, James Hamilton e Jose Andrés Murillo, que hoje são quadragenários e quinquagenários.

Durante uma conferência de imprensa conjunta, realizada esta quarta-feira, um deles, vítima do padre Fernando Karadima, declarado culpado, em 2011, por um tribunal do Vaticano, de ter cometido atos pedófilos nas décadas de 1980 e 1990, acusou o cardeal Javier Errazuriz.

Este cardeal é membro de uma comissão de nove cardeais encarregada de aconselhar o Papa Francisco sobre as reformas da Curia, deslocando-se regularmente a Roma.

"O cardeal Errazuriz é um verdadeiro criminoso, um homem que encobriu os atos odiosos de Karadima" durante pelo menos cinco anos, afirmou James Hamilton.

"Todos para a prisão", desejou, em tom de desabafo, denunciando também o silêncio de um outro cardeal chileno, Ricardo Ezzati.

No Chile, onde cerca de 80 membros do clero foram implicados numa série de abusos sexuais nos últimos anos, segundo uma associação de vítimas, a visita do Papa em meados de janeiro reabriu feridas.

Francisco transformou a sua viagem num fiasco mediático, ao defender vigorosamente um bispo chileno, Juan Barros, suspeito de ter escondido o comportamento pedófilo de Karadima.

O Papa tinha-se declarado persuadido da inocência de Juan Barros e solicitado às alegadas vítimas provas da sua culpabilidade. Mais tarde apresentou desculpas pelas suas afirmações infelizes e enviou dois investigadores ao Chile.

Ao ler as conclusões da investigação, que ocuparam 2300 páginas, que recolheu 64 depoimentos, o soberano pontífice prosseguiu na apresentação do seu pedido de desculpas, reconhecendo, há três semanas, ter cometido "graves erros" de apreciação da situação no Chile, numa carta que enviou aos 32 bispos do país.

Mencionando "uma falta de informação verídica e equilibrada", o Papa convocou para Roma, para a terceira semana de maio, o conjunto dos bispos chilenos.

"Disse ao Papa que Barros observava quando éramos abusados sexualmente. Creio que agora já está claro para ele", disse Juan Carlos Cruz, que falou com Francisco durante três horas.

"Quando o Papa me pediu perdão, nunca vi ninguém tão constrangido. Senti que ele estava mal", confiou.

Segundo esta vítima, o Papa disse-lhe: "Eu fiz parte do problema, provoquei isto e peço-lhe perdão".

Cruz, que escreveu a Francisco em 2015 para denunciar Barros, adiantou que concluiu que "o papa estava mal informado" e foi "enganado" pelos cardeais chilenos.

"Esperamos que o Papa Francisco transforme as suas palavras de amor e misericórdia em ações exemplares", escreveram as três vítimas num texto comum, no qual também agradecem ao Papa por ter "pedido perdão em seu nome e no da igreja universal".

A conferência de imprensa das vítimas chilenas realizou-se no dia seguinte ao anúncio de um processo na Austrália contra a terceira figura do Vaticano, o cardeal australiano George Pell, por acusações de agressão sexual, que ele rejeita.

Francisco, que tem defendido a "tolerância zero" para os padres pedófilos, é frequentemente confrontado com este tema, desde há muito abafado no ceio da igreja católica, mas agora muito mediatizado em vários países, quando as vítimas acabam por falar, por vezes décadas depois dos acontecimentos.

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