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Mercearias portuguesas em Bruxelas dão luta ao coronavírus

Mercearias portuguesas em Bruxelas dão luta ao coronavírus

Enquanto os grandes negócios estão a ir por água abaixo, a meia dúzia de mercearias portuguesas na capital belga conquista clientes, mesmo com distanciamento social e máscaras.

A mercearia Nova Primavera fica numa área na comuna de Ixelles onde são muitas as referências a Portugal, com os restaurantes, snack-bars e cafés como o Cambalhotas, o Pessoa, o Mondego, o Artista, todos agora com as persianas corridas. É a zona ideal para saudosismos, numa cidade onde a comunidade portuguesa não é das mais representadas.

Na Flagey, uma das mais conhecidas e cosmopolitas praças da capital belga, a menos de 500 metros da Nova Primavera, instalou-se há anos a estátua de Fernando Pessoa, a marcar território com o slogan "A minha Pátria é a língua portuguesa", traduzido em outros dois idiomas: francês e flamengo. No passado sábado, um brincalhão atualizou a imagem do poeta austero com uma copa de soutien a fazer de máscara. É o Pessoa já a sobreviver aos tempos da pandemia, a adaptar-se. E foi isso o que as mercearias portuguesas de Bruxelas fizeram enquanto durou o confinamento. Mas mais do que se adaptarem ou sobreviverem, em tempos de crise, as lojas portuguesas prosperaram.

O casal João e Isabel Furtado comprou em 1998 aquela que se acredita ser a mais antiga mercearia portuguesa em Bruxelas. "O Rui Fernandes, do Luxemburgo, abriu lá uma mercearia em 1970, chamada Primavera e abriu esta aqui, em 1978", conta João Furtado. Vinte anos depois, com a compra, o casal refrescou o nome do estabelecimento para Nova Primavera e o negócio foi crescendo. "Sempre tivemos muito trabalho, temos produtos de qualidade e não nos podemos queixar", diz João Furtado, um nativo da vila alentejana Campo Maior, há 38 anos a viver em Bruxelas.

A fruta, diz, é toda portuguesa, selecionada. As laranjas são do Algarve, as bananas da Madeira e o ananás é dos Açores. São cerca de 2.500 produtos, essencialmente de marcas portuguesas, e 400 vinhos e bebidas das várias regiões. Produtos esses que, mesmo com as fronteiras fechadas, nunca desocuparam as prateleiras. "Tivemos uma falta de farinhas durante uma semana, mas foi resolvido num instante", recorda o proprietário da frutaria. Durante os últimos dois meses, estando os estabelecimentos de restauração sem poder vender bicas, a venda de café em cápsulas teve um crescimento exponencial.

Com o fecho de todo o comércio não essencial decretado pelo governo belga a 14 de março, as pequenas mercearias acabaram por beneficiar de vários fatores cruzados, o que permite fazer um balanço. "O negócio não sofreu com o fecho, até está melhor", sustenta João Furtado. "Temos muitos clientes do Parlamento, pessoas que viajam muito e que deixaram de o fazer, e como toda a gente comia mais em casa, acabámos por vender mais."

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