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Kamala Harris: "Ó meu Deus, estou muito pronta para trabalhar"

Kamala Harris: "Ó meu Deus, estou muito pronta para trabalhar"

Kamala Harris, descendente de um afro-americano e de uma indiana, é a candidata democrata a vice-presidente.

Num dia de 1977, uma miúda de 13 anos juntou-se a outros como ela e manifestou-se em frente a um prédio de Montreal, no Canadá, cujo proprietário proibira as crianças de brincar no jardim. Ganhou a causa. O sangue que lhe corria então nas veias era o de uma mãe indiana, vinda de Nova Deli para Berkeley, na Califórnia, para estudar medicina e, de passagem, namorar com Donald, jamaicano que seria catedrático de economia em Stanford, à margem de protestos contra a Guerra do Vietname em San Francisco. Filha de um diplomata indiano, chamava-se Shyamala Gopalan Harris e costumava dizer às filhas, Kamala e Maya Lakshmi, que nunca deviam permitir que lhes dissessem quem são.

Esta terça-feira, Kamala recebeu uma videochamada a perguntar-lhe se estava pronta para trabalhar. Disse que sim - "Ó meu Deus, estou muito pronta para trabalhar". Kamala Harris tornou-se, oficialmente, a primeira afro-americana e asiático-americana na liça para se instalar no Observatório Naval de Washington, residência oficial dos vice-presidentes dos Estados Unidos. E, se o candidato democrata a presidente, Joe Biden, derrotar o presidente republicano Donald Trump, poderá ser mesmo a primeira mulher no cadeirão da Sala Oval - Biden já admitiu ter idade avançada (77 anos agora) para almejar um segundo mandato ou, nunca se sabe, um primeiro mandato completo.

A garra no sangue

Kamala e Maya (advogada e ativista da Associação Americana de Liberdade Civil) são essa fibra que a filha desta resume, em livro, como uma "grande ideia". E devem-no a Shyamala Gopalan, como a ela devem os nomes de divindades hindus. Disse-o Kamala, quando entrou na corrida a candidata democrata de que desistiria meses depois.

"A minha mãe foi uma mulher orgulhosa. Era uma mulher mestiça com uma pronúncia muito marcada. As pessoas olhavam-na de lado por causa dessa pronúncia. Não a levavam a sério e punham em causa a sua inteligência. Mas a minha mãe sempre provou que estavam errados". Palavras ditas em Oakland, onde Kamala nasceu e onde espalhou as cinzas de Gopalan.

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A vida passar-se-ia entretanto no Canadá, para onde a mãe, investigadora na área do cancro (doença que a levaria), foi trabalhar depois de se separar. Seguiria na "Harvard Negra", a Universidade Howard de Washington onde cursou Ciência Política, e na Califórnia natal que fez dela magistrada. A "juíza vermelha" como a pintam os críticos republicanos, indiferentes ao facto de os democratas progressistas lhe apontarem a moderação prudente em certos assuntos judiciais e dureza muito pouco democrata com que tomou algumas decisões.

A "juíza vermelha"

Foi nesses anos de Ministério Público - primeiro em Oakland, depois em San Francisco e finalmente eleita para a Califórnia toda, para o que contou com doações, espantem-se, de Trump - que conheceu Beau Biden, filho de Joe Biden com quem enfrentaria a Banca na crise de 2008-2011. Fizeram-se amigos até ele morrer. E isso Biden nunca esquecerá.

Em contrapartida, esqueceu aquela prova da dureza da entretanto eleita senadora pela Califórnia num debate às primárias. Ela acusou-o, sem o dizer, de posições racistas antigas que tinham a ver com a luta contra a segregação nas escolas.

Esqueceu, porque Kamala é o "Obama no feminino" (e o ex-presidente democrata, mestiço como ela, não deverá ser alheio à escolha, até porque a sondara para o Supremo e para procuradora-geral - Kamala recusou), a muito provável agregadora do voto feminino negro, no ano em que assinalam os cem anos do direito de voto das mulheres. E, também, o espelho democrata do "presidente da lei e da ordem" que Trump se autoproclamou, herança dos anos de procuradoria e da força com que encostou republicanos à parede desde que se senta no Capitólio.

Pragmática, maleável e centrista, ainda que mais progressista do que Biden, foi já alvo da crítica demolidora dos republicanos e de Trump, para quem é a ponta de lança da "esquerda radical". Porque defendeu já os imigrantes, a saúde universal ("socializada", dizem os conservadores) ainda que coexistindo com seguros, a subida de impostos às empresas (que Trump baixou), o aborto livre. "O sonolento Joe e a falsa Kamala. Estão perfeitos juntos. Um erro para os EUA", ouve-se num vídeo publicado pelo presidente.

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