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Golpe de Estado no Sudão: militares disparam contra civis

Golpe de Estado no Sudão: militares disparam contra civis

O primeiro-ministro do Sudão, Abdullah Hamdok, foi detido depois de se ter recusado a apoiar o "golpe de Estado", disse o Ministério da Informação do Sudão. Militares estão a disparar contra manifestantes na rua, segundo o governo.

As últimas informações dão conta da prisão do primeiro-ministro sudanês, Abdallah Hamdok, que foi detido esta segunda-feira depois de se ter recusado a apoiar o "golpe de Estado", disse o Ministério da Informação do Sudão.

O gabinete do primeiro-ministro, que se encontra detido em parte incerta, apelou aos sudaneses numa declaração, igualmente emitida pelo Ministério da Informação, para "se manifestarem" contra o "golpe de Estado".

"Exortamos o povo sudanês a protestar através de todos os meios pacíficos possíveis", afirmou o gabinete de Abdallah Hamdok.

No entanto, o exército disparou "munições reais" contra manifestantes que se concentraram no exterior do quartel-general do exército no centro da capital, Cartum, segundo avançou o ministério da Informação.

A internet foi cortada em todo o país, enquanto manifestantes se concentravam nas ruas da capital para protestarem contra as detenções.

"A liderança militar do Estado sudanês tem plena responsabilidade pela vida e segurança do primeiro-ministro Abdullah Hamdok e da sua família. Estes líderes são responsáveis pelas consequências criminais, legais e políticas das decisões unilaterais que tomaram", sublinhou o gabinete do primeiro-ministro.

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Os militares do Sudão tomaram as instalações da rádio e da televisão do Estado em Omdurman, cidade separada de Cartum pelo rio Nilo. "Os funcionários [da televisão] foram retidos", acrescentou o ministério da Informação sudanês. A estação de televisão estatal difundia esta manhã um longo concerto de música tradicional.

Várias capitais e organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, Liga Árabe, Estados Unidos e Alemanha, condenaram já a tentativa de golpe de Estado e apelaram ao regresso ao processo de transição.

As detenções acontecem após semanas de tensão entre as autoridades de transição civil e militar.

Estes acontecimentos surgem apenas dois dias após uma fação sudanesa que pedia uma transferência de poder para o Governo civil ter advertido sobre a preparação de um golpe de estado numa conferência de imprensa, que uma multidão de pessoas não identificadas procurou impedir.

O Sudão tem estado numa transição precária marcada por divisões políticas e lutas pelo poder desde a expulsão do presidente, Omar al-Bashir, em abril de 2019.

Desde agosto de 2019, o país tem sido governado por uma administração civil-militar encarregada de supervisionar a transição para um regime totalmente civil.

O principal bloco civil - as Forças pela Liberdade e Mudança (FFC) - que liderou os protestos anti-Bashir em 2019, dividiu-se em duas fações opostas.

"A crise atual é artificial - e assume a forma de um golpe", disse o líder da FFC, Yasser Arman, numa conferência de imprensa na capital, no sábado.

"Renovamos a nossa confiança no Governo, no primeiro-ministro, Abdullah Hamdok, e na reforma das instituições de transição, mas sem (...) imposição", acrescentou Arman.

As tensões entre os dois lados já existem há muito tempo, mas as divisões foram exacerbadas após o golpe falhado de 21 de setembro.

Na semana passada, dezenas de milhares de sudaneses marcharam em várias cidades para apoiar a transferência total do poder para os civis e em resposta a uma concentração rival de vários dias junto ao palácio presidencial em Cartum, na qual se exigia um regresso ao "domínio militar".

Hamdok descreveu anteriormente as divisões dentro do Governo de transição como a "crise mais grave e perigosa" que enfrenta a transição.

No sábado, Hamdok negou os rumores de que tinha concordado com uma remodelação do gabinete, salientado que não monopolizara o direito de decidir o destino das instituições de transição.

Também no sábado, o enviado especial dos EUA para o Corno de África, Jeffrey Feltman, reuniu-se com Hamdok, com o presidente do órgão governamental do Sudão, o general Abdel Fattah al-Burhan, e o comandante paramilitar Mohamed Hamdan Daglo.

Feltman "destacou o apoio dos EUA a uma transição democrática civil, em conformidade com os desejos expressos pelo povo sudanês", segundo a embaixada dos EUA em Cartum.

Os analistas dizem que as recentes manifestações mostram um forte apoio a uma democracia liderada por civis, mas os protestos de rua podem ter pouco impacto nas fações que pressionam para um regresso ao domínio militar.

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