Brexit

Londres, pragmática, espera para ver

Londres, pragmática, espera para ver

"Acho tudo muito calado. Tudo muito sossegado. Este silêncio..." Cândida Ramos, portuguesa emigrada há 25 anos no Reino Unido, resume uma cidade igual a si própria, limpa de protestos, pragmática.

Uma discreta publicidade de banco internacional britânico numa estação na linha central do metro e na imensa plataforma de transportes londrina de Victoria explica, nas letras pequenas, aquelas dos anúncios de medicamentos ou de carros, que o Reino Unido (UK) não é uma ilha, mas, sim, um lar para muito mais e pergunta a quem lê onde se sente em casa.

Numa janela do Departamento de Indústria e Energia, junto à catedral de Westminster, um ecrã LCD convida: "Faça do UK o melhor lugar do Mundo para os negócios crescerem", na senda da campanha anunciada pela ministra do Comércio Internacional, Liz Truss, que vai ser lançada depois de amanhã em várias cidades estrangeiras, "Prontos para o comércio" ("Ready to trade" e, de novo nas letras pequenas, "Onde vai encontrar um país comprometido com novas oportunidades de comércio?"). E é isto, nos jornais, no mundo virtual. O Brexit desapareceu de vista nas ruas da Londres contestatária e só volta amanhã à noite, com um espetáculo de luz a assinalar a hora do divórcio, 23, que nem o Big Ben acompanhará, por estar no estaleiro.

Será de estarmos em Londres e de aqui se viver, de certa forma, longe do próprio Reino Unido, numa bolha que chegou a aventar uma irreal independência. Ou será da ideia errada - dizem-nos muito isso, que nos preocupamos mais com o caos do que quem ali vive - que se tem dos britânicos fora da ilha deles. Votaram para sair do clube europeu e insistiram na decisão ao eleger sem espinhas o primeiro-ministro que assumiu as rédeas do divórcio. Se tem de ser, que seja rápido, para acabar com o sofrimento da incerteza, esse sentimento terrível que trava investimentos. Porque, na verdade, tudo isto é economia ("estúpido", acrescentaria o estratega da campanha do presidente democrata norte-americano Bill Clinton).

"Vamos ver" é a palavra de ordem e tranquilidade a exigência do momento, numa cidade que está a engolir um sapo. Por estes dias, o "mayor" de Londres, Sadiq Khan, trabalhista e anti-Brexit, mormente no que toca ao ódio à imigração, sendo ele próprio filho de paquistaneses, multiplicou pílulas tranquilizantes pelo Twitter. Amanhã, abre as portas do City Hall a todos os londrinos europeus para lhes tirar dúvidas legais sobre o esquema de residência e dar suporte psicológico se for caso disso. Tem um autocarro gritando "Somos todos londrinos" e oferece-se para ajudar os jovens em estatuto legal. "O UK pode estar a sair da União Europeia, mas Londres continuará a ser uma cidade europeia global, aberta ao Mundo", garante Khan.

falar inglês sem ingleses

Manuel Lobo Antunes, embaixador de Portugal no Reino Unido, chegou a Londres já o referendo definira o futuro. E assistiu a um processo que compara a um avião a atravessar uma zona de turbulência. "Juntos, conseguimos fazê-lo aterrar em segurança", disse a uma plateia de lusofalantes e londrinos interessados, numa sessão pública na Universidade Queen Mary. Só não se sabe o que está depois da porta de desembarque, admite. A esperança é a de algo "muito próximo" com o dia de hoje, sendo certo que depois de amanhã não mudará nada, porque só marca o arranque de um período de transição que o Governo britânico quer encaixar em 11 meses, mas que ninguém acredita ser suficiente para resolver todas as questões técnicas - e chatas - que se colocam agora na mesa das negociações de uma relação futura. Porque acabou o tempo das declarações de intenção políticas, o "Take back control" e o "Get Brexit done" que conduziram uma ilha e meia a rasgar uma relação de mais de 40 anos. Começou o tempo dos pormenores, alguns deles curiosos, que o diplomata português assinala com graça, como o facto de a língua inglesa ser a principal no círculo europeu que já não terá ingleses dentro dele. Ou o facto de não se poder alterar a geografia e de aquelas ilhas serem europeias, queiram ou não. E começou o tempo, diz Lobo Antunes, de a Europa assumir que "já não é o centro do Mundo" e que "perdeu o poder de indicar o caminho". As cedências e os compromissos terão de ser partilhados até porque o Mundo depende de um entendimento entre gente sã (dizemos nós) para responder aos desafios destes tempos. "É uma questão de racionalidade". Será?

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Parlamento aprova acordo de saída e conclui processo

O Parlamento Europeu aprovou, ontem, o acordo de saída do Reino Unido da União Europeia, a última formalidade que faltava para que o Brexit se concretize. Numa votação em que bastava uma maioria simples dos votos expressos, o Parlamento Europeu "carimbou" a saída do Reino Unido da União Europeia com 621 votos a favor, 49 contra e 13 abstenções. Três anos e meio após o Brexit ter sido decidido num referendo por 52% dos eleitores britânicos, em junho de 2016, o processo chega ao fim, com a saída a concretizar-se às 23 horas de amanhã.

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