Itália

Máfia calabresa no maior julgamento em décadas

Máfia calabresa no maior julgamento em décadas

Arrancou, esta quarta-feira, o maior julgamento da máfia italiana em mais de 30 anos, que coloca no banco dos réus mais de 350 suspeitos de ligação ao grupo 'Ndrangheta, com tentáculos por todo o mundo.

Os arguidos, entre eles membros do grupo, políticos, polícias, funcionários públicos, advogados e empresários, vão ser julgados por crimes relacionados com tráfico de drogas, assassinato, associação criminosa, extorsão, lavagem de dinheiro, abuso de poder, agiotagem, entre outros. Acredita-se que a 'Ndrangheta controle o fornecimento de enormes quantidades de cocaína que entram na Europa oriundas da América do Sul e de outros lugares.

Neste caso, os procuradores tentam provar uma teia de crimes sangrentos e de colarinho branco ocorridos nos anos 90, após uma longa investigação ao grupo 'Ndrangheta, operado pela família Mancuso. O arguido mais famoso é o alegado líder deste clã, Luigi Mancuso, de 66 anos, também conhecido como "o Tio".

O megajulgamento, que deverá durar entre um ano e dois anos, decorre num antigo call center convertido numa enorme sala de tribunal fortificada especialmente para este efeito, na cidade de Lamezia Terme, no sul da Calábria, o coração do território de 'Ndrangheta. Mais de 900 testemunhas de acusação deverão depor em tribunal. Para o procurador do caso, Nicola Gratteri, o julgamento é "a pedra angular na construção de um muro contra as máfias na Itália", disse à agência "AFP".

Desde os anos 80, quando a máfia siciliana Cosa Nostra foi julgada (entre 1986 e 1992), que não se realizava em Itália um julgamento contra o crime organizado tão grande. As 338 condenações resultaram num duro golpe contra as várias famílias que compunham este grupo, mas também no posterior assassinato dos procuradores Giovanni Falcone e Paolo Borsellino pelos mafiosos.

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A 'Ndrangheta já é considerada maior do que a Cosa Nostra. Opera principalmente a partir da província calabresa de Vibo Valentia, mas os seus tentáculos espalham-se pelo mundo.

Caso tem quase 450 arguidos

O número de arguidos deste caso ultrapassa os 400, se forem contabilizados os 92 suspeitos que pediram um julgamento acelerado em separado. Entre estes, surge o nome de Giancarlo Pittelli, advogado e ex-senador do partido Forza Italia, do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que nega ter ligado 'Ndrangheta a políticos e instituições poderosas como os tribunais.

A maioria dos suspeitos foi detida em operações realizadas antes do amanhecer, levadas a cabo em Itália, na Alemanha, na Suíça e na Bulgária, em dezembro de 2019.

Nicola Gratteri, de 62 anos, é a figura central por trás deste processo. Ele prometeu derrubar "esta asfixiante 'Ndrangheta, que tira o fôlego e a pulsação às pessoas". Gratteri é o procurador antimáfia mais famoso de Itália. Viveu sob proteção policial mais de três décadas.

Federico Varese, professor de criminologia da Universidade de Oxford, considera que "este julgamento mostra como a 'Ndrangheta está profundamente enraizado na sociedade". "É chocante haver um grupo criminoso tão enraizado no território, que se tenha que levar centenas de pessoas a julgamento", comentou à "AFP". O especialista alerta, contudo, que não basta julgar, nem prender para se acabar com o grupo mafioso: é preciso "eliminar as suas causas originais" para não se voltar a reproduzir.

As atividades e riqueza do grupo

Para o juiz Roberto Di Bella, que acumula quase 30 anos de conhecimento dos métodos usados pela máfia calabresa, o grupo 'Ndrangheta é "talvez a organização criminosa mais poderosa do mundo, mas certamente a mais difusa, presente nos cinco continentes". As suas atividades encaixam-se nas típicas dos grupos de crime organizado, como é o tráfico de droga, a extorsão e a lavagem de dinheiro.

O que torna o 'Ndrangheta diferente dos outros grupos de máfia é a sua estrutura, baseada em laços de sangue, sendo "de grande confiança, porque são poucos os traidores", explica Di Bella à "AFP". Será essa a razão pela qual os produtores de droga colombianos e mexicanos usaram o 'Ndrangheta para vender o seu produto na Europa.

"O enorme fluxo de dinheiro gerado pelas drogas permite a 'Ndrangheta comprar tudo - negócios, restaurantes - para poluir a economia não apenas de Itália, mas de muitos outros países do mundo", diz.

As autoridades italianas estimam que 'Ndrangheta tenha cerca de 20 mil membros espalhados por todo o mundo, contudo, a sua verdadeira constituição e riqueza são difíceis de estabelecer. Nicola Gratteri estima que o grupo gere anualmente um volume de negócios de mais de 50 mil milhões de euros, grande parte através do tráfico de cocaína. Considera-a a organização mais rica do mundo.

Está presente em muitas zonas da Calábria, onde se infiltrou em praticamente todas as áreas da vida pública, desde autarquias a hospitais, cemitérios e até tribunais, segundo os especialistas.

Crueldade dos atos

A 'Ndrangheta é uma organização mafisaosa "temida pela sua ferocidade e crueldade", segundo o procurador Nicola Gratteri. Maria Chindamo, uma empresária de 42 anos da Calábria, terá sido assassinada e o seu corpo dado a comer a porcos, em 2016, após se recusar a ceder as suas terras a um vizinho com ligações ao grupo.

A 'Ndrangheta, assim como outros grupos mafiosos, também foi responsabilizado pela morte de dezenas de crianças desde os anos 50. O grupo só foi classificado como máfia pela lei italiana em 2010, mas a sua origem remonta pelo menos à unificação da Itália em 1861. Ganhou destaque público nas décadas de 1980 e 1990 devido a uma série de sequestros por toda a Itália.

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