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Mentira ou eficácia? O mistério da baixa letalidade da covid-19 na Rússia

Mentira ou eficácia? O mistério da baixa letalidade da covid-19 na Rússia

As autoridades de saúde russas destacam a rápida aposta nas medidas de contenção do covid-19, mas há vozes críticas a pedir transparência, por acreditarem que nem tudo está a ser dito à população. Um dos casos que despertou a atenção foi o de uma mulher dada como infetada, a quem foi atribuída outra causa de morte posteriormente.

"Sim, estou doente. Estou a ser tratado", reconheceu esta terça-feira Dmitri Peskov, porta-voz da presidência russa, atualmente internado num hospital a receber tratamento para a covid-19. Sem avançar mais detalhes quanto ao seu estado de saúde.

O homem da confiança do presidente Vladimir Putin costuma acompanhá-lo em todas as deslocações, mas não promovia a habitual conferência de imprensa diária desde o passado dia 6. E garante às agências noticiosas russas que a última vez que esteve em contacto com o chefe de Estado foi "há mais de um mês".

Além de Peskov, também o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin e os ministros da Construção e da Cultura, Vladimir Iakuchev e Olga Liubimova, contraíram SARS-CoV-2, numa altura em que o surto de covid-19 se descontrolou no país.

Aliás, a Rússia é, neste momento, o segundo país do mundo (apenas atrás dos EUA) com maior número de infetados: mais de 242 mil. Só nas últimas 24 horas, foram contabilizados mais de dez mil novos casos de infeção - valores que se repetem há vários dias e que não impediram Putin de dar início ao processo de desconfinamento na segunda-feira.

Ainda assim, a baixa taxa de letalidade do vírus na Rússia - até agora contam-se 2212 mortes por covid-19 - tem sido encarada de forma algo misteriosa. Afinal de contas, num país com quase 145 milhões de habitantes e um número de infetados a disparar diariamente, como é que que se explica um número de óbitos tão baixo?

O governo é perentório: o encerramento antecipado das fronteiras e a quarentena obrigatória imposta, desde o início de março, a todos os que chegavam do exterior foram determinantes para combater a gravidade do vírus. Mas há críticos do regime que levantam dúvidas, acreditando que os números da mortalidade têm sido anunciados com vários milhares em falta e que as autoridades atribuem outras causas às mortes de muitos doentes infetados.

Segundo avança o jornal El País, poderá ter sido esse o caso de Valentina Zúbareva. A professora, de 79 anos, foi internada, em meados de março, num hospital de Moscovo e, dias depois, acabou por falecer. O presidente da Câmara de Moscovo, Sergei Sobyanin, anunciou, a 19 de março, que Valentina foi a primeira pessoa a morrer com o novo coronavírus na Rússia.

Horas depois, uma nova versão da história: afinal, a causa de morte da idosa estava associada à diabetes e à patologia cardíaca de que sofria.

O caso de Zúbareva pode lançar algumas pistas sobre os dados apresentados oficialmente. É que o protocolo do ministério da Saúde russo estabelece que, ao formular um diagnóstico patológico, deve ser clara a distinção entre uma morte causada por covid-19 "quando esta é a doença principal" e o falecimento de pacientes com outras patologias, mesmo infetados com SARS-CoV-2.

O ministro da Saúde russo, Mikhail Murashko, diz ainda que, além do confinamento, a baixa mortalidade pode ainda estar ligada à administração da vacina da BCG contra a tuberculose, embora não tenha esclarecido se a Rússia está a investigar a ligação entre a vacina e o vírus.

O demógrafo Alexéi Raksha, que está a estudar os dados apresentados desde o início da pandemia, acredita que o número "real" de mortes por covid-19 na Rússia é pelo menos cinco vezes superior ao oficial.

"O número de óbitos está subestimado e as análises post-mortem não estão a ser feitas", garantiu. Questionada, esta terça-feira, quanto aos relatos que colocam em causa os números oficiais, a vice-primeira-ministra Tatiana Gólikova assegurou que o governo "nunca manipulou dados estatísticos oficiais".

O Kremlin aprovou uma lei que criminaliza dados falsos sobre o novo coronavírus. Medida essa que os ativistas denunciam como sendo um instrumento usado para silenciar o debate nos meios de comunicação social sobre a transparência na crise da saúde.

Entretanto, os profissionais de saúde russos continuam a denunciar a falta de material de proteção para o tratamento de doentes covid-19. De acordo com Anastasía Vasilieva, da Aliança dos Médicos, a Rússia tem um dos maiores números de ventiladores por habitante, mas muitos deles não são utilizáveis por estarem desatualizados.

De recordar que, no espaço de dez dias, três médicos que tinham criticado a falta de equipamento de proteção nos hospitais caíram da janela das unidades onde trabalhavam em circunstâncias que não foram esclarecidas e que geraram burburinho nas redes sociais.

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