Fronteiras

Migrante de três anos obrigada a escolher entre mãe e pai por agente dos EUA

Migrante de três anos obrigada a escolher entre mãe e pai por agente dos EUA

"Gostas mais do teu pai ou da tua mãe?" é daquelas perguntas que qualquer tio já fez a um sobrinho, sabendo de antemão a resposta que ia ouvir: "Dos dois". Quando a brincadeira inofensiva, que só tem como objetivo deixar a criança desconfortável, ganha outras proporções e passa para o plano real, os danos são consideravelmente maiores.

Foi nessa posição que Sophia, uma menina hondurenha de três anos, foi colocada quando um agente de controlo fronteiriço dos EUA a obrigou a fazer uma escolha que nenhuma criança deveria ter de fazer. Sublinhando a necessidade de separar a família. O agente deu-lhe a escolher entre ficar com a mãe no país - e com os dois irmãos que também lá ficariam - ou com o pai, que seria deportado para o México.

O caso, reportado originalmente pela estação de rádio NPR e depois pelo "The Washington Post", aconteceu na semana passada no centro de detenção de migrantes de El Paso, no Texas. "A menina, por ser mais afeiçoada a mim, disse 'mãe'", contou a mãe da menina, Tania, através de um intérprete. "Mas quando [os agentes] começaram a levá-lo [ao pai], ela começou a chorar." Perante o choro, o agente tê-la-á lembrado da escolha que acabara de fazer: "Disseste mãe".

Tania e o marido, Joseph, disseram à NPR que passaram parte da última semana a tentar impedir os agentes da patrulha fronteiriça de separarem a família. Foram, inclusivamente, apoiados por um médico que tinha examinado a filha de três anos - doente cardíaca grave - e que implorou aos agentes que mantivessem pais e filhos juntos.

Violência brutal nas Honduras levou família aos EUA

Tania, Joseph e os três filhos chegaram aos Estados Unidos em busca de asilo depois de a mulher ter visto a mãe ser baleada nove vezes por membros de um gangue nas Honduras, que depois ainda atropelaram o corpo com uma moto. A cunhada de Tania, que também testemunhou o assassinato, foi morta, tal como a filha, depois de ter concordado em testemunhar em tribunal sobre o homicídio.

Depois disso, Tania encontrou na porta de casa um bilhete com instruções para sair de casa com a família. Tinha 45 minutos para fazê-lo. Depois de uma jornada passada em abrigos e sob ameaças de cartéis de drogas, a família chegou finalmente a El Paso, no Texas, na fronteira com o México. Mas, uma vez nos EUA, foi-lhes dito que tinham de voltar.

No âmbito do Protocolo de Proteção de Migrantes, que a administração Trump anunciou no início do ano e que envia determinados migrantes para o México enquanto os pedidos de asilo são processados, Sophia e a família foram encaminhados para Ciudad Juárez, cidade mexicana onde abundam grupos criminosos e onde os migrantes podem ser alvos fáceis.

História acabou bem

A advogada da família, diretora executiva de uma ONG de apoio a migrantes, tentou tirar a família do protocolo em causa, justificando o pedido com os problemas de coração de Sophia, que já lhe tinham valido um ataque cardíaco no passado. Isto porque o Departamento da Segurança Interna estabelece que pessoas com "doenças físicas ou mentais conhecidas" não devem ser enviadas para o México.

Na semana passada, um médico contratado pelo Departamento examinou a menina e confirmou o que os pais já sabiam. Disse a um agente da patrulha fronteiriça que a condição era séria e enfatizou o quão imperativo era para a família ficar junta. Respondendo que o agregado tinha de ser separado, foi então que o agente fez a pergunta "mãe ou pai?".

"Eu ia ser separado dos meus filhos e da minha mulher, e ia voltar para Juárez sozinho. Senti-me devastado", disse Joseph à NPR.

Na sexta-feira passada, a situação mudou. O médico voltou ao centro de detenção e disse a outro agente o que já havia dito ao primeiro. A resposta foi positiva dessa vez. "Ele disse que lhe ia dar entrada", contou Tania. Ainda nesse dia, a família foi encaminhada para um abrigo de migrantes em El Paso, e mais tarde voou para a região centro-oeste, para se encontrarem com familiares.