Holocausto

Namorados de Auschwitz voltam a estar juntos 72 anos depois

Namorados de Auschwitz voltam a estar juntos 72 anos depois

David Wisnia e Helen Spitzer fazem parte do grupo de sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz, um dos mais duros do regime nazi durante a II Guerra Mundial. Voltaram a encontrar-se 72 anos depois em Nova Iorque, nos Estados Unidos, com vidas separadas, mas ainda com muito amor entre os dois.

A reportagem do jornal "New York Times" mostra mais uma vez que as histórias de Auschwitz dificilmente deixarão de ser contadas. Por mais anos que passem. Esta é a de David Wisnia e de Helen Spitzer, dois judeus que se tornaram namorados num dos campos de morte mais duros e temidos da História.

Ele tinha 17 e ela tinha 25 anos. A partir do momento em que cruzaram olhares em Auschwitz pela primeira vez, tornaram-se confidentes e protegeram-se um ao outro.

David Wisnia começou a trabalhar nos crematórios do campo: era responsável por carregar os corpos daqueles que se suicidavam nas redes elétricas do campo de concentração. Já Helen Spitzer começou a fazer trabalhos de demolição no campo, mas contraiu algumas doenças e foi reencaminhada para os escritórios.

Ambos mudaram o seu rumo em Auschwitz: David que tinha aptidão para o canto tornou-se um "animador" das forças de segurança nazis e Helen ficou responsável pela conceção do fardamento feminino, já que tinha estudos na área do design gráfico.

Embora com uma posição privilegiada no campo de concentração, o risco era sempre uma realidade em terreno de ódio. Durante vários meses protegeram-se mutuamente e com ajuda de outros. Encontravam-se uma vez por semana e incumbiam aos colegas a tarefa de vigiar os guardas enquanto namoravam.

Helen Spitzer, que tinha acesso a vários documentos oficiais no escritório, conseguiu manipular alguns papéis, para que alguns prisioneiros pudessem ser reencaminhados para outro tipo de trabalhos no campo. Teve ainda a possibilidade de aceder a relatórios de Auschwitz e enviá-los para grupos de resistência ao regime nazi.

A jovem judia de 17 anos terá protegido desta forma o amado. Durante os encontros com David pagava aos outros prisioneiros com comida para os vigiar durante 30 minutos a uma hora.

David e Helen falaram de muita coisa durante esses encontros: do passado, presente e do futuro que teriam juntos. Sabiam que com a força dos Aliados e a crescente destruição massiva de provas em Auschwitz, a separação dos dois estaria próxima. Por isso, o casal combinou encontrar-se no final da guerra, em Varsóvia, na Polónia.

O encontro nunca chegou a acontecer. David conseguiu escapar de uma "marcha da morte", que se dirigia para Dachau, e foi resgatado pelo exército norte-americano, do qual se viria a tornar colaborador. Helen fugiu também de uma "marcha da morte" e dedicou-se nos anos seguintes ao trabalho humanitário, primeiro num campo de refugiados na Alemanha e depois em vários países.

O jovem judeu fixou-se nos Estados Unidos, onde viria a reencontrar-se com uma tia. Após contactar com outros sobreviventes do Holocausto percebeu que Helen tinha sobrevivido.

Tentou marcar um encontro (anos mais tarde), mas a jovem judia nunca apareceu.

O tempo passou, ambos casaram e sem saberem, faziam ambos vida nos Estados Unidos, a ainda encarada terra de todas as oportunidades. Só voltaram a reencontrar-se 72 anos depois, quando Helen já estava doente e numa cama de hospital.

David Wisnia, hoje com 93 anos, quando a reencontrou tinha uma pergunta para a namorada de Auschwitz: teria ele sobrevivido com a ajuda dela?

Helen respondeu: "Eu salvei-te cinco vezes". E depois acrescentou: "Eu esperei por ti". A então jovem judia tinha ido mesmo até Varsóvia, na Polónia, para encontrar-se com David, mas foi ele que não apareceu.

Helen Spitzer morreu no ano passado com 100 anos. No último encontro a dois, David cantou uma música húngara que a namorada lhe tinha ensinado em Auschwitz. Após 72 anos, esta terá sido a última melodia que a sobrevivente do Holocausto ouviu.

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