França

Não param as suásticas em cemitérios franceses. EUA responsabilizados

Não param as suásticas em cemitérios franceses. EUA responsabilizados

Quem na terça-feira passada foi ao cemitério judeu de Westhoffen, nos arredores de Estrasburgo, ficou inquieto com o que viu - 107 sepulturas com a cruz suástica pintada e outros símbolos racistas - mas não surpreendido - a prática tem sido comum no país.

Tão comum que o ministro do Interior, Christophe Castaner, anunciou a criação de um "gabinete nacional de luta contra o ódio", durante uma visita ao cemitério do século XVI. O organismo, explicou, "será responsável por coordenar a força policial militar tanto nesta investigação, para que todos os meios sejam mobilizados, mas também em todas as investigações de atos antissemitas, antimuçulmanos e anticristãos" que acontecem em território francês.

Há vários meses que a região da Alsácia, onde se inclui Estrasburgo, tem sido confrontada com um aumento das manifestações antissemitas e racistas através de atos de vandalismo, nomeadamente em cemitérios. A 19 de fevereiro deste ano, 96 sepulturas do cemitério judeu de Quatzenheim foram profanadas com inscrições antissemitas. Dois meses antes, o alvo tinha sido o cemitério de Herrlisheim, no nordeste de Estrasburgo. De acordo com a imprensa francesa, este foi o 42.º ataque do género em espaços da região - sepulturas, edifícios públicos, escolas e centros culturais - no espaço de 18 meses e, ainda assim, ninguém foi detido, embora equipas policiais estejam a trabalhar a tempo inteiro para descobrir os suspeitos.

Uma fonte próxima da investigação disse à norte-americana CNN que se suspeita que o incidente em Westhoffen tenha sido provocado por habitantes da zona que foram influenciados por sites disseminadores de ódio. Além disso, explicou à estação de televisão o coronel FrancoisDespres, responsável pela investigação aos ataques na região, o autor deste tipo de atos não tem o perfil dos criminosos comuns, "que normalmente fazem o que fazem por causa de dinheiro". "Este é outro tipo de criminoso, é o tipo de pessoa que está habituada a ser discreta tanto na sociedade como quando cometem os crimes. Por isso é que é uma questão de paciência, e nós somos pacientes e a paciência vai dar frutos", acredita.

Investigação CNN responsabiliza EUA

Enquanto decorre a caça pelos culpados, a CNN começou a investigar os casos para descobrir quem os protagoniza e de onde vêm as influências. "O caminho levou-nos da Alsácia, através das Bahamas e Panamá, até os Estados Unidos", revela um trabalho publicado sobre o assunto. A CNN encontrou dois sites escritos em francês - "Europa branca", com origem nas Bahamas, e "Democracia participativa", no Panamá - que saúdam e apoiam os ataques. Ambas as páginas - que por estarem alojadas fora de França, escapam às leis de discurso anti-ódio do país - promovem teorias do supremacista branco norte-americano David Lane, criador do famoso slogan de 14 palavras "Devemos garantir a existência do nosso povo e um futuro para crianças brancas". No ataque ao cemitério de Westhoffen, uma das sepulturas foi grafitada com o número 14.

Os sites em causa usam a empresa norte-americana Cloudflare, que não só permite que os sites fiquem online como se mantenham livres de ataques cibernéticos. A Cloudflare já interrompeu o serviço de pelo menos dois sites norte-americanos por manifestações xenófobas mas, questionada por que não toma igual ação contra sites escritos em francês, a empresa não respondeu.

Os gigantes tecnológicos norte-americanos também têm quota de responsabilidade. No Facebook, que já bloqueou os dois sites franceses, publicações de cariz xenófobo ficam algum tempo online antes de serem eliminadas. O ataque a duas mesquitas na Nova Zelândia foi, aliás, transmitido em direto na rede social durante 17 minutos antes de ser apagado. Por seu turno, o Twitter, que também se tem esforçado para combater discursos de ódio, autoriza publicações desses dois sites e outros semelhantes, apesar de já se ter comprometido a bloqueá-los no futuro.

O problema é que, como o discurso de ódio na Internet está muito fora do alcance das leis nacionais, as únicas restrições que se aplicam são decididas pelas empresas privadas, caso a caso. Questionado sobre se os EUA, onde muitos desses gigantes estão sediados, têm feito o suficiente, o ministro francês do Interior é categórico: "Não. E a minha resposta é clara, porque as culturas são diferentes". E explica: "Não é uma questão de opor a cultura francesa e europeia à norte-americana, mas eles acreditam na liberdade de dizer tudo e mais alguma coisa. Eu acredito que não se pode falar em liberdade quando nós e os nossos valores fundamentais estão a ser atacados."

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